Segurança pública em Goiás vira campo de disputa política e contraste de dados

Em uma estratégia que analistas políticos classificam como arriscada, o ex-governador e candidato ao governo de Goiás, Marconi Perillo (PSDB), tem pautado seu discurso de campanha em críticas à segurança pública da atual gestão, liderada pelo governador Ronaldo Caiado (PSD) e pelo vice Daniel Vilela (MDB). A investida, contudo, esbarra em indicadores oficiais que revelam um cenário de queda acentuada na criminalidade desde que o grupo tucano deixou o poder, colocando o debate em uma zona de desconforto para o ex-mandatário.
A queda dos índices criminais e o peso da série histórica
Os números do Atlas da Violência apontam que Goiás alcançou, em 2024, a menor taxa de homicídios desde o início da série histórica no ano 2000, registrando 18,42 mortes por 100 mil habitantes. O dado ganha contornos críticos quando confrontado com o período em que Perillo esteve à frente do Palácio das Esmeraldas. Entre 2012 e 2016, o estado viveu o auge da violência, atingindo o pico de 46,18 homicídios por 100 mil habitantes em 2013 — um índice 150,7% superior ao verificado na atualidade.
A disparidade não se limita aos crimes contra a vida. Dados do Observatório de Segurança Pública evidenciam uma transformação drástica no combate aos crimes patrimoniais. Comparando o ano de 2018, final da gestão tucana, com 2025, a redução no roubo de veículos alcançou a marca de 95%, caindo de 10.105 para 508 ocorrências. Outras modalidades criminosas acompanharam a tendência de queda:
- Roubos de carga: redução de 97%
- Roubos em comércio: queda de 91%
- Roubos a transeuntes: recuo de 92%
- Roubos em residência: diminuição de 83%
Memória coletiva e episódios de grande repercussão
A tentativa de emplacar a segurança como bandeira de oposição enfrenta, além dos dados, a memória recente da população goiana. Durante os anos de governo de Marconi Perillo, o estado foi palco de episódios que ganharam projeção nacional pela gravidade e pela dificuldade de resposta das forças de segurança. O caso do serial killer Tiago Henrique Gomes da Rocha, que cometeu cerca de 40 assassinatos entre 2011 e 2014, tornou-se um símbolo da fragilidade institucional da época.
Outro evento traumático ocorreu em 2014, quando uma chacina no Bairro Cardoso 2, em Aparecida de Goiânia, resultou na morte de seis pessoas. O ataque, realizado por homens encapuzados, escancarou o avanço da criminalidade organizada e a incapacidade do Estado em conter a violência urbana, um tema que, à época, dominava as preocupações diárias dos cidadãos.
Desafios eleitorais e a percepção pública
A atual gestão, encabeçada por Ronaldo Caiado e Daniel Vilela, sustenta uma aprovação de 70% na área de segurança pública, conforme apontado pela pesquisa Genial/Quaest divulgada em julho. Esse índice de aceitação reflete a mudança objetiva no cotidiano dos goianos, que hoje percebem um ambiente de maior controle estatal. Para o cientista político, o movimento de Perillo ao atacar justamente o ponto de maior sucesso do adversário pode ser contraproducente, ao reavivar lembranças de um período em que a segurança era o principal gargalo de sua administração.
O ex-governador, que acumula derrotas nas disputas ao Senado em 2018 e 2022, busca agora uma retomada de protagonismo. No entanto, a insistência em um tema onde os números jogam contra sua trajetória histórica reforça o desafio de reconquistar o eleitorado. O Parlamento segue acompanhando o desenrolar da campanha eleitoral e os desdobramentos dos debates sobre as políticas públicas em Goiás, mantendo o compromisso com a análise aprofundada e a checagem de fatos que orientam o nosso trabalho jornalístico.
