Picada de cobra em Piracanjuba resulta em morte e afastamento de médicos por suposta negligência

A pequena cidade de Piracanjuba, no sul de Goiás, está abalada por uma tragédia que levanta sérios questionamentos sobre o atendimento de emergência na rede pública de saúde. A morte de José Carlos Bernardes de Campos, um trabalhador rural de 56 anos, após ser picado por uma cobra cascavel, desencadeou uma crise administrativa no Hospital Municipal Tuany Garcia e resultou no afastamento imediato de dois médicos envolvidos no caso.
picada: cenário e impactos
O incidente, ocorrido na tarde de quinta-feira, 21 de maio de 2026, expõe o drama de famílias que dependem do sistema público em situações de vida ou morte. Segundo relatos de parentes, a vítima teria buscado socorro por duas vezes, mas em ambas as ocasiões o tratamento essencial — a aplicação do soro antiofídico — teria sido negado pelos profissionais de plantão, sob a justificativa de que o procedimento não era necessário.
Relatos de negligência e a dor da família
A denúncia de negligência partiu de Neide Fátima de Campos, irmã de José Carlos. Em depoimento emocionado, ela relatou que o irmão foi levado ao hospital logo após o acidente ofídico. Mesmo com a insistência da família para que o soro fosse administrado, os médicos teriam optado por liberar o paciente. Pouco tempo depois, já em casa, o quadro clínico de José Carlos se agravou rapidamente.
“Ele passou mal, falando que estava com a garganta infeccionando, apertando, fechando. Meu irmão correu de novo para o hospital e eles não quiseram de novo colocar esse soro”, afirmou Neide. A certidão de óbito confirmou que a causa da morte foi envenenamento. Para a família, não resta dúvida de que houve uma falha fatal no julgamento clínico. A sensação de impotência é agravada pelo fato de que o veneno da cascavel (Crotalus) é conhecido por sua ação neurotóxica e miotóxica, exigindo intervenção rápida para evitar a paralisia muscular e a insuficiência renal.
A defesa técnica e a disponibilidade do soro antiofídico
Em resposta ao ocorrido, a Secretaria Municipal de Saúde de Piracanjuba, sob a gestão de Selma Justus, emitiu uma nota detalhada esclarecendo a posição da administração pública. Um dos pontos centrais da defesa da prefeitura é que não houve falta de insumos. Segundo a secretaria, o Hospital Municipal Tuany Garcia estava devidamente abastecido com soros antibotrópico, anticrotálico e antielapídico.
A nota técnica enfatiza que a decisão de aplicar ou não o imunobiológico é uma prerrogativa exclusiva do médico assistente, baseada na autonomia profissional garantida pela Lei do Ato Médico (Lei nº 12.842/2013) e pelo Código de Ética Médica. A gestão municipal argumenta que sua responsabilidade é prover a estrutura e os medicamentos, enquanto a conduta clínica diante do paciente é de responsabilidade pessoal e indelegável do profissional de saúde.
Implicações legais e o afastamento dos profissionais
Diante da gravidade dos fatos e do clamor público, a prefeitura adotou medidas administrativas rigorosas. Os dois médicos que atenderam José Carlos foram suspensos preventivamente de suas funções. Além disso, foi instaurado um Procedimento Administrativo de Apuração de Responsabilidade para verificar se houve aderência aos protocolos estabelecidos pelo Ministério da Saúde e pela Secretaria de Estado da Saúde de Goiás (SES-GO).
O caso também será levado ao Conselho Regional de Medicina de Goiás (CREMEGO) e ao Ministério Público (MP-GO). A investigação deve focar no motivo pelo qual, mesmo diante de um acidente com animal peçonhento confirmado, o protocolo de observação e soroterapia não foi seguido conforme as diretrizes nacionais. A autonomia médica, embora protegida por lei, não exime o profissional de responder por possíveis erros de diagnóstico ou omissão de socorro em casos de emergência clara.
O protocolo de atendimento para acidentes com cascavéis
Acidentes ofídicos são considerados emergências médicas no Brasil. O protocolo padrão envolve a classificação da gravidade do envenenamento e a administração imediata do soro específico. No caso da cascavel, os sintomas podem incluir pálpebras caídas, visão turva e dores musculares generalizadas. O Hospital Municipal informou que manteve contato com o Centro de Informação e Assistência Toxicológica (Ciatox), mas os detalhes desse diálogo e as recomendações dadas pelo órgão de referência ainda estão sob sigilo.
A tragédia em Piracanjuba serve como um alerta para a importância da educação continuada de profissionais de saúde em áreas rurais, onde o contato com animais peçonhentos é frequente. A perda de uma vida por falta de aplicação de um medicamento disponível no estoque da unidade é um cenário que a justiça e os órgãos de controle agora buscam esclarecer para evitar que novos casos ocorram.
O Parlamento segue acompanhando os desdobramentos desta investigação, reafirmando nosso compromisso com a transparência e a busca pela verdade em temas que impactam diretamente a segurança e o bem-estar da população. Continue acompanhando nossas atualizações para entender os próximos passos deste caso e outras notícias relevantes do cenário regional e nacional.
Para mais informações sobre protocolos de saúde e segurança, consulte o guia oficial do Ministério da Saúde sobre acidentes ofídicos.




