Saúde

Novas diretrizes mudam conduta no tratamento de tireoide durante a gestação

Gestantes que apresentam anticorpos contra a tireoide (anti-TPO) positivos, mas que mantêm o funcionamento da glândula dentro da normalidade, não devem mais ser submetidas ao tratamento preventivo com levotiroxina. A mudança na conduta médica é baseada em evidências científicas recentes, que demonstraram que a administração do hormônio sintético nesses casos específicos não reduz os riscos de abortamento ou de parto prematuro.

A atualização foi oficializada no Brasil durante o 37º Congresso Brasileiro de Endocrinologia e Metabologia, realizado no Rio de Janeiro. A decisão é fruto de um alinhamento entre a Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM) e a Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia (FEBRASGO), incorporando recomendações publicadas pela Associação Americana da Tireoide (ATA) em junho deste ano.

Fim do uso preventivo de hormônios

O subcoordenador do Departamento de Tireoide da SBEM, Cleo Mesa Júnior, explica que a presença do anticorpo anti-TPO indica apenas uma predisposição ao desenvolvimento de distúrbios, não configurando, por si só, uma doença ativa. Se os níveis de TSH e T4 livre da paciente estiverem dentro dos padrões de referência, a gestante é considerada eutireoidiana.

“Não há benefício comprovado em usar levotiroxina apenas pela gestante ter o anticorpo positivo”, reforça o especialista. Embora o uso preventivo tenha sido descartado, o monitoramento da glândula permanece essencial ao longo de todo o período gestacional, uma vez que o histórico de anti-TPO positivo eleva a probabilidade de a mulher desenvolver hipotireoidismo durante a gravidez.

Manutenção do rastreamento universal no Brasil

Diferente da diretriz internacional, que sugere o rastreamento seletivo — focado apenas em mulheres com fatores de risco como obesidade ou idade materna avançada —, o Brasil optou por manter a estratégia de testagem universal. Isso significa que todas as gestantes continuarão sendo avaliadas desde o início do pré-natal para identificar precocemente eventuais alterações.

A decisão brasileira visa evitar que mulheres que não se enquadram nos critérios de risco tradicionais fiquem sem diagnóstico. Segundo especialistas, a abordagem nacional busca um equilíbrio entre a detecção precoce de patologias e a redução do uso desnecessário de medicamentos, promovendo uma assistência mais individualizada e precisa para cada paciente.

Manejo do hipotireoidismo subclínico

Outro ponto de mudança significativa refere-se ao hipotireoidismo subclínico, caracterizado pelo aumento do TSH com níveis de T4 livre normais. A nova orientação estabelece que, para casos em que o TSH se encontra entre 4,0 e 10 mUI/L, o tratamento deve ser priorizado no primeiro trimestre, período em que o feto apresenta maior dependência dos hormônios maternos para o desenvolvimento.

Caso a alteração seja detectada apenas no segundo ou terceiro trimestre, a recomendação atual é de apenas monitorar a função tireoidiana, sem a introdução de levotiroxina, a menos que o TSH ultrapasse o patamar de 10 mUI/L. Essa cautela visa evitar a medicalização excessiva sem comprovação de benefícios clínicos para o binômio mãe-bebê.

Agilidade no diagnóstico e acompanhamento

O Brasil também mantém uma postura distinta quanto à repetição de exames. Enquanto a diretriz internacional sugere um intervalo de uma a três semanas para confirmar a alteração antes de iniciar o tratamento, a recomendação médica brasileira prioriza a agilidade. O receio é que, em um sistema de saúde complexo, a espera pela reavaliação resulte na perda da janela de oportunidade terapêutica.

Para pacientes que já possuíam diagnóstico de hipotireoidismo antes da concepção, a orientação permanece inalterada: o ajuste da dose de levotiroxina, geralmente com um aumento de 30%, deve ser realizado imediatamente após a confirmação da gravidez. Para mais informações sobre saúde e atualizações médicas, continue acompanhando o portal O Parlamento, seu compromisso diário com a informação de qualidade e credibilidade.

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