UFJF e UFMG pedem desculpas pelo uso de corpos de pacientes psiquiátricos em aulas
O reconhecimento de uma dívida histórica
Em um movimento de reparação histórica e ética, a Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF) e a Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) formalizaram pedidos de desculpas pelo uso de cadáveres de pacientes psiquiátricos em suas aulas de anatomia. O episódio remete ao sombrio capítulo do Hospital Colônia de Barbacena, instituição que se tornou símbolo das violações de direitos humanos no Brasil durante o século XX.
A UFJF divulgou sua carta de retratação nesta segunda-feira (18), seguindo um caminho iniciado pela UFMG no mês passado. Ambas as instituições reconheceram a conivência com um sistema que, sob o pretexto de tratamento e segurança, submeteu milhares de pessoas ao isolamento, à violência e à desumanização, tratando vidas como descartáveis mesmo após a morte.
A tragédia do Hospital Colônia de Barbacena
O Hospital Colônia de Barbacena foi palco de um dos períodos mais trágicos da saúde pública brasileira. Conforme documentado pela jornalista Daniela Arbex na obra Holocausto Brasileiro, estima-se que mais de 60 mil pessoas tenham morrido na unidade. O cenário de horror incluía a comercialização de corpos de internos para faculdades de medicina, prática que perdurou por décadas.
Registros históricos indicam que, entre 1962 e 1971, o Instituto de Ciências Biológicas da UFJF recebeu 169 corpos provenientes do hospital para fins de estudo anatômico. A universidade admite hoje que o processo de segregação social, que atingia pessoas marginalizadas por questões de gênero, raça e classe, facilitou a transformação desses indivíduos em objetos de estudo sem o devido respeito à dignidade humana.
Reparação e mudança de paradigma
Para além do pedido de desculpas, as universidades anunciaram medidas concretas de reparação simbólica e pedagógica. A UFJF comprometeu-se a promover ações educativas sobre direitos humanos e saúde mental, além de buscar apoio para a criação de um memorial em homenagem às vítimas. A instituição também planeja aprofundar pesquisas documentais sobre as conexões históricas com o Hospital Colônia.
A UFMG, por sua vez, adotou diretrizes semelhantes, incluindo a restauração de registros históricos e a inserção do debate sobre ética e memória nas disciplinas de anatomia da Faculdade de Medicina. Ambas as instituições enfatizam que, atualmente, o ensino de anatomia baseia-se exclusivamente no Programa de Doação Voluntária de Corpos, uma prática ética e consentida que substituiu o modelo de exploração de indigentes.
A luta antimanicomial e o legado de Nise da Silveira
O debate sobre o uso desses cadáveres é indissociável da luta antimanicomial no Brasil, que busca desconstruir o estigma da periculosidade associado ao sofrimento psíquico. A literatura e a arte têm sido ferramentas fundamentais para essa reflexão, com obras como O Alienista, de Machado de Assis, antecipando críticas à psiquiatria autoritária.
No campo prático, o trabalho da psiquiatra Nise da Silveira permanece como um marco de humanização. Através do Museu Imagens do Inconsciente, a médica revolucionou o tratamento de transtornos mentais, provando que o cuidado deve ser pautado pela escuta e pela expressão criativa, e não pelo confinamento. O Parlamento segue acompanhando os desdobramentos dessas retratações e o avanço das políticas de memória e direitos humanos no país.




