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Césio-137: o papel crucial de um geólogo e um equipamento emprestado na descoberta do maior acidente radioativo do Brasil

Em setembro de 1987, uma sequência de eventos infelizes culminou no que é considerado o maior acidente radioativo da história fora de uma usina nuclear. A tragédia do Césio-137 em Goiânia deixou um legado de mortes, doenças e um trauma coletivo que perdura até hoje. No entanto, a dimensão exata do perigo e a urgência da situação foram desvendadas graças à sagacidade e à ação de um homem, o geólogo Sebastião Maia de Andrade, e ao empréstimo de um equipamento vital: o cintilômetro.

A história, revisitada por profissionais que atuaram na época e, mais recentemente, pela família de Sebastião Maia, revela como a rapidez na detecção da radiação foi decisiva para iniciar as complexas operações de contenção. Naquele período, Sebastião atuava como gerente da antiga Empresas Nucleares Brasileiras S/A (Nuclebrás) em Goiás, uma posição que lhe conferia conhecimento técnico e acesso a recursos especializados, cruciais para a situação que se desenrolava.

A Origem do Desastre e a Ação Pioneira

O acidente com o Césio-137 teve início quando sucateiros encontraram uma cápsula de radioterapia abandonada em uma clínica desativada. Desconhecendo o perigo, eles a romperam, expondo um pó brilhante que, por sua beleza luminescente, foi distribuído e manuseado por diversas pessoas. A substância, um isótopo radioativo altamente perigoso, começou a contaminar rapidamente indivíduos, residências e áreas públicas na capital goiana, invisível aos olhos, mas devastadora em seus efeitos.

Foi nesse cenário de crescente, mas ainda não compreendida, contaminação que o sanitarista Paulo Roberto Monteiro, vizinho e amigo de Sebastião Maia, procurou ajuda. Em busca de um equipamento capaz de medir a potencial radioatividade, ele foi autorizado por Sebastião a usar o cintilômetro da Nuclebrás. Naquele fatídico 29 de setembro, Paulo Roberto, acompanhado de um físico e outro funcionário, realizou as primeiras medições que viriam a mudar o rumo da tragédia.

A Confirmação do Perigo e a Resposta Imediata

Ao retornarem ao escritório da Nuclebrás, Sebastião Maia decidiu ele mesmo testar o grupo com o cintilômetro. A leitura foi alarmante. “Você está contaminado, suas roupas estão contaminadas. Vai para casa, põe a roupa no quintal e toma banho”, recordou a filha do geólogo, Ana Carla Maia, sobre as instruções do pai a Paulo Roberto. A gravidade da situação o levou a ir pessoalmente ao epicentro da contaminação, na Avenida Anhanguera, no Setor Aeroporto, onde o aparelho radiológico original havia sido manipulado. Ali, a detecção de um altíssimo nível de radiação confirmou os piores temores.

Ainda em 1987, antes da ampla disponibilidade da internet, a comunicação rápida dependia de tecnologias como o telex, um sistema de teleimpressores conectado por linhas telegráficas. Sebastião Maia não hesitou. Voltou à Nuclebrás e enviou um telex urgente à Superintendência da empresa, relatando a descoberta e informando que já havia contatado o diretor das instalações nucleares da Comissão Nacional de Energia Nuclear (CNEN), o físico José Júlio Rosental. Este comunicado foi a primeira sinalização oficial e estruturada sobre a crise iminente, desencadeando as operações de emergência que se seguiriam.

O Legado da Tragédia e a Luta pela Memória

O acidente com o Césio-137 ceifou a vida de quatro pessoas, incluindo a menina Leide das Neves, que se tornou um símbolo da inocência perdida na catástrofe. Mais de mil indivíduos foram afetados direta ou indiretamente, enfrentando problemas de saúde física e mental, além do estigma social. Sebastião Maia, embora tenha falecido em 2006 aos 70 anos, carregou consigo as marcas do evento. A família relata que, independentemente da causa de sua pancreatite, ele sofreu “problemas psicológicos” e “um trauma muito grande” devido ao impacto da tragédia.

O reconhecimento formal de seu papel veio em vida, em 2004, quando a Assembleia Legislativa de Goiás (Alego) lhe concedeu o título de Cidadão Goiano. No entanto, a percepção familiar é de um certo “apagamento” de sua atuação crucial. Por isso, sua neta, Ana Gabriela Maia Clemente, decidiu usar as redes sociais para resgatar e valorizar a memória de seu avô. A postagem, que obteve mais de 20 mil interações em poucos dias, destacou o telex enviado, a medição com o cintilômetro e a comunicação com a CNEN como provas irrefutáveis de sua importância histórica.

Lições para o Futuro e a Importância da Informação

A história do Césio-137 não é apenas um lembrete sombrio dos perigos da radiação e da negligência no descarte de materiais perigosos. Ela é também uma narrativa sobre a coragem individual, a importância da perícia técnica e a rede de colaboração que se formou para conter um desastre. O caso impulsionou mudanças significativas nas políticas de segurança nuclear e no manuseio de resíduos radioativos no Brasil, servindo como um marco na educação sobre os riscos e na preparação para emergências.

Para o leitor de hoje, a revisitação dessa história, impulsionada inclusive pelas redes sociais, reforça a necessidade de vigilância constante sobre o patrimônio histórico e as lições do passado. A busca por informação contextualizada e a valorização dos relatos de quem viveu esses momentos são essenciais para manter viva a memória e garantir que tais erros não se repitam. Continue acompanhando O Parlamento para mais reportagens que aprofundam os fatos, trazem contexto e promovem uma leitura jornalística real dos acontecimentos que moldaram e continuam a moldar nossa sociedade.

Fonte: https://g1.globo.com

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