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Em Goiás, a força do artesanato e da reciclagem revitaliza comunidades e economias locais

A vitalidade de muitas comunidades goianas encontra sua raiz na capacidade de transformar saberes tradicionais e materiais descartados em fontes de renda e desenvolvimento. Na Cidade de Goiás e no distrito de Olhos d’Água, em Alexânia, a resposta para a permanência cultural e econômica passa pelas mãos de mulheres e homens que, por meio do bordado, da cerâmica, da gastronomia e da reciclagem, tecem um futuro mais autônomo e digno. Essas iniciativas comunitárias exemplificam como o empreendedorismo social, a economia criativa e o trabalho coletivo são pilares para fortalecer pequenos negócios e dinamizar as economias locais.

Na antiga capital do estado, a poesia se une à argila e ao tecido, enquanto trabalhadores que antes dependiam de um lixão hoje prosperam com a coleta seletiva. Em Olhos d’Água, um vilarejo conhecido por sua tradicional Feira do Troca, oficinas culturais e ações comunitárias impulsionam o turismo e o artesanato, elevando a renda dos moradores. Essas histórias convergem para um ponto comum: a valorização do que é local e a força da organização para gerar impacto social e econômico.

Mulheres Coralinas: Poesia, Bordado e Autonomia Financeira

A Associação Mulheres Coralinas, fundada em 2013 na Cidade de Goiás, nasceu de um projeto crucial de enfrentamento à violência doméstica. Ao longo de dois anos, cerca de 150 mulheres participaram de oficinas que abrangiam gastronomia, bordado, cerâmica e trabalhos com fibras naturais do cerrado. Em 2016, o grupo se formalizou, permitindo a comercialização coletiva dos produtos.

A professora e coordenadora do projeto, Ebe Maria de Lima Siqueira, destaca que a iniciativa sempre buscou conciliar a geração de renda com o fortalecimento social. O objetivo era conferir autonomia financeira às participantes, mas também edificar um ambiente de pertencimento e construção coletiva. “A autonomia financeira era um dos pilares. Mas, paralelo a isso, também uma autonomia de pensamento”, afirmou Ebe, ressaltando a dimensão transformadora do projeto.

A obra de Cora Coralina serviu de inspiração, com versos da escritora sendo incorporados aos produtos, conferindo uma identidade cultural única às peças. Atualmente, as Mulheres Coralinas mantêm uma loja no Mercado Municipal da Cidade de Goiás e participam ativamente de feiras e eventos culturais. Além da produção artesanal e gastronômica, a associação promove rodas de conversa e vocalização de poemas, engajando-se na economia criativa e no cooperativismo. Entre as integrantes está Dona Conceição, que, após décadas como gari, hoje se dedica à leitura de poemas no grupo.

Recicla Tudo: Do Lixão à Cooperativa de Sucesso

A geração de renda na Cidade de Goiás também se manifesta na área ambiental. A Cooperativa Recicla Tudo é fruto de uma mobilização iniciada em 2018 por professores universitários, artistas e movimentos sociais, em conjunto com catadores de materiais recicláveis que atuavam no lixão da cidade. A formalização da cooperativa ocorreu dois anos depois, em 2020.

A cientista social Jaqueline Talga Vilas Boas, uma das articuladoras, explica que o propósito central era assegurar melhores condições de vida e organização coletiva aos trabalhadores, que antes operavam individualmente e em condições precárias. “Eles ficavam reféns dos atravessadores, comiam no lixão e tinham uma renda muito pequena. Hoje, as condições de trabalho são muito melhores”, pontuou Jaqueline.

Atualmente, 12 famílias dependem da renda gerada pela cooperativa. Além da venda de recicláveis, o grupo obteve o primeiro contrato de prestação de serviço de coleta seletiva firmado entre uma cooperativa e uma prefeitura em Goiás. Para Jaqueline, a organização coletiva transcendeu a esfera financeira, impactando a percepção dos cooperados sobre seus direitos. A cooperativa também transformou a relação da cidade com o lixo, incentivando os moradores a separar resíduos em casa, um hábito que antes não existia.

Olhos d’Água: Cultura como Motor de Desenvolvimento Local

A cerca de 100 quilômetros da Cidade de Goiás, no distrito de Olhos d’Água, em Alexânia, a cultura também se consolidou como ferramenta de geração de renda e fortalecimento comunitário. A Associação Comunitária de Olhos d’Água (Acorde) atua há décadas com oficinas culturais, preservação do patrimônio histórico e incentivo ao artesanato local.

Mariana Bulhões, presidente da associação, afirma que a proposta sempre foi converter a cultura em um instrumento de permanência e desenvolvimento econômico para a própria comunidade. A Acorde oferece oficinas de música, artesanato, corte e costura, além de apoiar eventos tradicionais como a Feira do Troca, um marco cultural do vilarejo. “A cultura é a base da economia criativa em Olhos d’Água”, enfatizou Mariana.

A associação também gerencia o Memorial de Olhos d’Água, um espaço dedicado à memória, aos saberes tradicionais e à história local. Muitos alunos das oficinas transformaram seus aprendizados em profissões, atuando na cadeia produtiva cultural da região. “Alguns alunos dos cursos de voz e violão se tornaram músicos e hoje têm bandas. Alguns artesãos levaram o ofício adiante e representam Olhos d’Água nacionalmente”, contou Mariana. Em 2024, artesãs da comunidade colaboraram com estilistas em um evento de moda em Goiás, demonstrando o alcance do trabalho. A Acorde também recebeu capacitações do Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae Goiás) em áreas como marketing e tecelagem, fortalecendo o empreendedorismo comunitário.

O Papel Estratégico do Empreendedorismo Comunitário

As capacitações oferecidas pelo Sebrae Goiás têm sido fundamentais para o sucesso dessas iniciativas. Segundo João Luiz Prestes Rabelo, analista técnico e gestor estadual das Indicações Geográficas do Sebrae Goiás, o empreendedorismo comunitário e a economia criativa são vistos como catalisadores de transformação. “O Sebrae Goiás acredita que o empreendedorismo comunitário e a economia criativa têm a capacidade de transformar territórios a partir daquilo que eles possuem de mais valioso: sua identidade cultural, seus saberes tradicionais e o talento das pessoas que vivem nessas comunidades”, explicou.

Em localidades como a Cidade de Goiás e Olhos d’Água, o trabalho do Sebrae inclui capacitações em gestão, acesso ao mercado e valorização do artesanato local. João Luiz observa que o cenário atual revela um crescente interesse dos consumidores por produtos que carregam tradição, sustentabilidade e uma história autêntica. “O consumidor busca cada vez mais autenticidade, conexão emocional e produtos que carreguem histórias e identidade cultural”, afirmou. Para mais informações sobre o apoio a pequenos negócios, visite o site do Sebrae.

Desafios e a Persistência do Coletivo

Apesar dos notáveis avanços e do impacto positivo, essas iniciativas enfrentam desafios persistentes. A falta de estrutura adequada, as dificuldades de financiamento, a baixa remuneração e a ausência de políticas públicas permanentes são obstáculos significativos. Para as Mulheres Coralinas, a logística e a limitação de equipe dificultam a expansão das vendas online. A Recicla Tudo aponta a necessidade de maior suporte público para consolidar a coleta seletiva e a manutenção da cooperativa. Já a Acorde busca recursos contínuos para sustentar o memorial, as oficinas e as ações culturais.

Mesmo diante dessas adversidades, a crença no trabalho coletivo permanece inabalável. Esses projetos continuam a ser faróis de geração de renda, fortalecimento comunitário e preservação cultural no interior de Goiás, demonstrando a resiliência e a capacidade de inovação de suas comunidades.

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