Saúde

Ultraprocessados: A Escalada do Consumo, Seus Riscos e o Desafio das Políticas Públicas no Brasil

O cenário alimentar brasileiro passa por uma transformação silenciosa, mas profunda, com implicações sérias para a saúde pública e a economia do país. Nas últimas quatro décadas, o consumo de **alimentos ultraprocessados** mais que dobrou entre os brasileiros, saltando de 10% para alarmantes 23% do total de calorias ingeridas diariamente. Este fenômeno, longe de ser isolado, ecoa em escala global, evidenciado por uma série de artigos científicos publicados na renomada revista The Lancet, que reuniram o trabalho de mais de 40 pesquisadores internacionais, sob a liderança de cientistas da Universidade de São Paulo (USP).

A gravidade do tema ganha destaque com o programa “Caminhos da Reportagem”, da TV Brasil, que dedicou um episódio à complexa questão dos **ultraprocessados na mesa dos brasileiros**. A reportagem não apenas contextualiza como e por que o conceito de ultraprocessado foi criado, mas também explora as consequências sociais e de saúde decorrentes da crescente ingestão desses produtos, convidando à reflexão sobre nossos hábitos e o papel do sistema alimentar moderno.

A Origem do Conceito: Da Escolha Individual ao Sistema Alimentar

Foi no Brasil, mais precisamente na USP, que o conceito de ultraprocessados foi cunhado em 2009. Liderado pelo pesquisador **Carlos Monteiro**, do Núcleo de Pesquisas Epidemiológicas em Nutrição e Saúde (Nupens), a iniciativa nasceu da preocupação crescente com as taxas de **obesidade**, **sobrepeso** e **doenças crônicas** diretamente associadas ao consumo de alimentos com alto nível de processamento. Antes dessa inovadora classificação, a narrativa predominante atribuía o aumento dessas condições de saúde à ‘falta de força de vontade’ individual, uma visão que Monteiro e sua equipe desafiaram.

“Não existe uma epidemia de falta de força de vontade, as pessoas são as mesmas”, argumenta Carlos Monteiro. “O que mudou foi o sistema alimentar. O sistema alimentar hoje é muito não saudável e acaba estimulando as pessoas a quase compulsoriamente consumir alimentos ultraprocessados”. Essa perspectiva revolucionária deslocou o foco da culpa individual para uma análise crítica das estruturas de produção e consumo de alimentos, sublinhando a responsabilidade de um ambiente alimentar que favorece escolhas prejudiciais.

Classificação NOVA: Entendendo o Que Comemos

Para facilitar a compreensão e a pesquisa sobre o impacto dos alimentos, a equipe de Monteiro desenvolveu a **classificação NOVA**, que organiza os alimentos em quatro grupos distintos:

(1) **Alimentos in natura ou minimamente processados**: Frutas, legumes, grãos como arroz e feijão ensacados. São alimentos obtidos diretamente de plantas ou animais, sem alteração ou com alterações mínimas que não alteram significativamente sua composição.

(2) **Ingredientes culinários processados**: Azeite, manteiga, sal e açúcar. Produtos que servem para cozinhar e temperar os alimentos do grupo 1, mas que não são consumidos isoladamente em grandes quantidades.

(3) **Alimentos processados**: Milho em lata, sardinha em lata, pães frescos de padaria. São produtos feitos adicionando sal, açúcar, óleo ou outros ingredientes culinários a alimentos in natura, com o objetivo de prolongar sua duração ou torná-los mais agradáveis.

(4) **Alimentos e bebidas ultraprocessados**: Bolachas recheadas, refrigerantes, macarrão instantâneo, salgadinhos de pacote, bebidas açucaradas. Caracterizam-se por serem formulações industriais feitas principalmente com ingredientes extraídos de alimentos (óleos, gorduras, açúcar, proteínas) ou sintetizados em laboratório (corantes, aromatizantes, conservantes, realçadores de sabor). Geralmente são nutricionalmente desequilibrados, ricos em açúcar, sal, gorduras e aditivos, e pobres em fibras e nutrientes essenciais.

O Alto Preço dos Ultraprocessados para a Saúde e a Economia Brasileira

Os efeitos devastadores do consumo de ultraprocessados não se limitam apenas à balança. Um levantamento minucioso conduzido pela **Fiocruz Brasília** em parceria com o Nupens revelou que esses produtos custam mais de **R$ 10 bilhões** anualmente à saúde e à economia do Brasil. Este montante alarmante reflete os gastos com tratamento de doenças relacionadas, a perda de produtividade devido a enfermidades crônicas e a mortalidade prematura.

O pesquisador **Eduardo Nilson**, da Fiocruz Brasília, reforça a gravidade da situação ao apontar que, segundo estudos, a eliminação do consumo de ultraprocessados poderia **prevenir até 57 mil mortes por ano** no país. Esses dados, que são um alerta contundente, mobilizam cientistas, organizações da sociedade civil e defensores da ‘comida de verdade’ em busca de políticas públicas mais eficazes para conter essa epidemia silenciosa.

Desafios nas Políticas Públicas: A Reforma Tributária e Outras Estratégias

A discussão sobre o consumo de ultraprocessados se intensificou com a aprovação da **reforma tributária** em dezembro de 2023, cuja transição iniciou em 2026 e se estenderá até 2033. Havia uma expectativa de que o novo desenho fiscal do Brasil incluísse medidas mais agressivas para desestimular o consumo de itens prejudiciais à saúde.

No entanto, os produtos ultraprocessados, em sua maioria, ficaram de fora do **imposto seletivo** – a chamada “taxa do pecado” –, criada para onerar produtos nocivos. Apenas as **bebidas açucaradas**, como refrigerantes, foram alvo de uma taxa extra. Kelly Santos, coordenadora-geral de Alimentação e Nutrição na Secretaria de Atenção Primária à Saúde do Ministério da Saúde, explica que, embora um conjunto importante de alimentos saudáveis terá alíquotas zero de imposto, a alíquota para bebidas açucaradas ainda depende da aprovação de uma lei complementar. Ela cita exemplos de países como **México** e **Chile**, que já implementam impostos mais altos sobre esses produtos, como inspiração para o Brasil.

Além da tributação, outras frentes de batalha incluem a **educação nutricional** e **estratégias regulatórias de publicidade**. Paula Johns, diretora executiva da organização **ACT Promoção da Saúde**, destaca a importância de impor limites na publicidade de alimentos ultraprocessados, fazendo um paralelo com o sucesso das restrições aplicadas ao cigarro. “Você vê aqueles biscoitos recheados com várias alegações de que eles têm vitaminas. Então, tem todo um contexto de promoção desses alimentos que cria uma ilusão de saudabilidade”, alerta Johns, referindo-se à estratégia de ‘nutri-lavagem’ (nutri-washing) utilizada pela indústria para mascarar a natureza insalubre de seus produtos.

Ações concretas, como a da escola em Águas Lindas de Goiás, que investe em ‘comida de verdade’ e educação alimentar como parte do **Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE)**, demonstram que é possível reverter esse quadro. O PNAE, reconhecido mundialmente, é um exemplo de política pública que promove o acesso a uma alimentação adequada e saudável, incentivando a agricultura familiar e a sustentabilidade.

Um Futuro com Mais Comida de Verdade?

O desafio dos ultraprocessados é multifacetado, envolvendo saúde, economia, cultura e política. A urgência de medidas mais eficazes é inegável, seja por meio de políticas fiscais mais ousadas, regulamentação da publicidade infantil, incentivo à produção e consumo de alimentos in natura, ou programas de educação alimentar em larga escala. A discussão não se encerra nas prateleiras dos supermercados, mas se estende às salas de aula, aos gabinetes de Brasília e às mesas de cada lar brasileiro.

Para entender a profundidade desse debate e acompanhar os próximos passos na busca por um sistema alimentar mais saudável e justo, continue conectado com O Parlamento. Nosso compromisso é trazer informações relevantes e aprofundadas sobre os temas que impactam diretamente a sua vida e a sociedade, com análises que vão além da superfície e promovem o entendimento crítico.

Fonte: https://agenciabrasil.ebc.com.br

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