Uso de água da Saneago em culto de igreja evangélica gera controvérsia em Goiás

Uma igreja evangélica em Goiânia, a Assembleia de Deus Palavra da Vida, se viu no centro de uma controvérsia após utilizar copos de água com a logomarca da Saneago, a Companhia de Saneamento de Goiás, durante um culto da campanha intitulada “Águas Purificadoras”. O caso, inicialmente revelado pela jornalista Fabiana Pulcineli, do jornal “O Popular”, e posteriormente confirmado pelo g1, levantou questionamentos sobre o uso de bens de uma empresa estatal em eventos privados sem a devida autorização.
As imagens e vídeos divulgados no perfil oficial da igreja no Instagram mostram dezenas de copos com o logotipo da Saneago dispostos sobre uma mesa, enquanto fiéis participam do culto, formando filas para pegar a água e segurando os recipientes durante cânticos e orações. A situação gerou repercussão imediata, colocando em xeque as políticas de compliance e o controle sobre os recursos de entidades públicas e privadas.
O Significado da Campanha e a Origem Suspeita dos Copos
A campanha “Águas Purificadoras”, que ocorre às quartas-feiras, tem um forte simbolismo espiritual para os fiéis, associando a água a conceitos de purificação e renovação. No entanto, a materialidade dos copos utilizados no culto do dia 13 de maio trouxe à tona uma discussão secular sobre a procedência e a legalidade de seu uso.
A apuração inicial indicou que os copos teriam sido fornecidos por um funcionário do RedeMob Consórcio, uma instituição privada responsável pela operação do sistema de transporte coletivo da Região Metropolitana de Goiânia, que frequenta a igreja. O pastor Celiomar Gouveia, líder da Assembleia de Deus Palavra da Vida, teria afirmado à jornalista Fabiana Pulcineli que o funcionário alegou que os copos eram sobras da distribuição realizada durante o evento MotoGP de Goiânia, ocorrido em março. Contudo, o RedeMob Consórcio, em sua nota, informou que as sobras seriam da inauguração do Terminal Padre Pelágio, realizada no mesmo mês na capital. Essa divergência nas informações sobre a origem dos copos adiciona uma camada de complexidade ao caso, indicando uma possível falha na cadeia de custódia ou na comunicação interna.
Saneago: Políticas de Uso e a Natureza Pública
A Saneago é uma empresa de economia mista, com o Governo de Goiás sendo o acionista majoritário, detendo 67,23% das ações totais. Essa natureza jurídica implica que seus bens e sua marca estão sujeitos a rigorosas diretrizes de uso, visando proteger o patrimônio público e garantir a transparência.
Documentos disponíveis na área de Relações com Investidores no site da Saneago detalham as políticas de uso da marca e de apoio a eventos. A cessão gratuita de copos de água com a logomarca da empresa, embora não seja considerada patrocínio, exige que “parâmetros estabelecidos pela Superintendência de Comunicação e Marketing (Sumar)” sejam seguidos. Além disso, a “Política de porta-vozes, comunicação e divulgação de informações da Saneago” estabelece que o uso da marca por terceiros em qualquer tipo de divulgação está condicionado à autorização prévia da Gerência de Marketing (PR-GMK), mediante análise de alinhamento com os princípios e valores institucionais. A Saneago enfatizou que a solicitação, autorização ou liberação de copos para o culto em questão não ocorreu, caracterizando uma violação de suas normas internas.
As Respostas Oficiais e as Investigações em Andamento
Diante da repercussão, tanto a Saneago quanto o RedeMob Consórcio emitiram notas oficiais. A Saneago foi enfática ao declarar que “não houve solicitação, autorização ou liberação de copos de água para este evento” e que está tomando “as devidas providências visando apurar a ocorrência, bem como adotará demais medidas decorrentes”. A empresa citou o item 10 da Política de Apoio de Água para Eventos/Atividades, que exige que os copos sejam utilizados exclusivamente pelos participantes do evento para o qual foram solicitados.
Por sua vez, o RedeMob Consórcio afirmou que “não compactua com nenhuma conduta que possa ferir os direcionamentos do compliance” e que a iniciativa da doação das águas ocorreu em nível de supervisão, sem o conhecimento da diretoria. A instituição informou que o caso foi direcionado para o Comitê de Integridade do Consórcio, que avaliará a responsabilidade dos profissionais envolvidos por meio de um processo administrativo. É importante notar que, no segundo dia da campanha da igreja, em 20 de maio, os copos utilizados já eram de outra fabricante, a água mineral “Nativa”, com sede na capital goiana.
Repercussão e a Importância da Transparência na Gestão Pública
O episódio da distribuição dos copos de água da Saneago em um culto religioso em Goiânia sublinha a constante necessidade de vigilância e transparência na gestão de bens e marcas de empresas estatais. A repercussão do caso na imprensa e nas redes sociais demonstra a sensibilidade do público em relação ao uso adequado dos recursos que, em última instância, pertencem à coletividade.
Ações como as investigações internas prometidas pela Saneago e pelo RedeMob Consórcio são cruciais para reafirmar o compromisso com a ética e o compliance, evitando que recursos públicos sejam desviados ou utilizados de forma indevida. A clareza e a responsabilização dos envolvidos são passos fundamentais para manter a confiança da população nas instituições.
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