Vendedora do Enem há 27 anos conta como rotina inspirou estudos

A rotina dos locais de prova do Exame Nacional do Ensino Médio guarda histórias que vão muito além dos cadernos de questões e das redações. Em meio à movimentação intensa de portões que se fecham e candidatos correndo contra o relógio, o cenário de grandes avaliações nacionais costuma atrair trabalhadores em busca de oportunidades comerciais. Para muitos, a jornada é apenas mais um dia de comércio informal, mas para quem acompanha essa maratona educacional por décadas, o ambiente pode transformar trajetórias de vida inteiras.
No estado de Goiás, onde mais de 160 mil estudantes participam do primeiro dia de avaliações, a movimentação mobiliza escolas e universidades em diversas cidades. Enquanto o Ministério da Educação registra mais de cinco milhões de inscrições confirmadas em todo o território nacional, com ampla maioria feminina entre os participantes, o clima nas ruas mescla ansiedade, expectativa e preparativos de última hora para as provas de linguagens, ciências humanas e redação.
Tradição e renda extra nas portas das provas
Há 27 anos, Tacileide Lemos, de 55 anos, faz parte da paisagem nos arredores dos locais de aplicação de exames em Goiás. Trabalhando como vendedora de canetas e lanches, ela encontrou na grande concentração de candidatos uma alternativa para complementar o orçamento familiar. A renda obtida com as vendas nas calçadas ajuda a custear despesas básicas do lar, como contas de água, energia e telefone.
Com o passar dos anos, a dinâmica das vendas sofreu alterações visíveis. Segundo a comerciante, os estudantes têm chegado mais bem preparados e informados sobre as exigências do exame, reduzindo a necessidade de compras de última hora. No entanto, a figura do candidato despreparado que esquece o material obrigatório ainda garante a utilidade de seu pequeno comércio ao ar livre.
O incentivo que virou diploma universitário
O contato diário e prolongado com calouros e veteranos acabou gerando um efeito colateral transformador na vida de Tacileide. O convívio constante com o ambiente acadêmico despertou o interesse pelos estudos e motivou a própria vendedora a prestar o exame. Com dedicação aos livros, ela realizou o processo seletivo e conquistou uma vaga no ensino superior.
A experiência bem-sucedida com a avaliação serviu de estímulo dentro da própria família. O filho da vendedora também seguiu o mesmo caminho, utilizando a nota obtida na avaliação nacional para ingressar na faculdade. Para Tacileide, a conquista do diploma em segurança pública representa a concretização de um objetivo construído ano após ano nas calçadas das universidades.
Desafios e preparação para o segundo dia
Enquanto histórias de superação motivam candidatos e trabalhadores informais, a logística do exame segue rigorosamente o cronograma oficial estabelecido pelo governo federal. Os portões são abertos ao meio-dia e fechados impreterivelmente às 13h, horário de Brasília, dando início a uma tarde inteira de concentração dentro das salas de aula em todo o país.
O encerramento do primeiro ciclo de avaliações marca apenas a metade da jornada para os milhões de inscritos. No próximo domingo, os participantes retornarão aos locais de prova para enfrentar mais noventa questões focadas em matemática e ciências da natureza, encerrando o ciclo anual do exame que define o acesso ao ensino superior brasileiro.
Acompanhe O Parlamento para continuar informado sobre os principais acontecimentos do país, coberturas especiais de educação, política e fatos que marcam o cotidiano da sociedade brasileira com profundidade e rigor jornalístico.




