Construção de Brasília fez cidade goiana mudar de lugar para ficar na beira de rodovia

A construção de Brasília na década de 1950 não alterou apenas a paisagem política do país e o mapa do Distrito Federal, mas provocou transformações profundas em municípios vizinhos no estado de Goiás. Em meio ao boom de desenvolvimento e à abertura de novas rotas de integração nacional, uma cidade goiana tomou uma decisão drástica e sem precedentes: transferir inteiramente a sua sede para mais perto de uma rodovia estratégica que ligava o interior à nova capital federal, redesenhando o próprio destino.
Esse movimento de relocação urbana mudou permanentemente a dinâmica de Abadiânia, município que nasceu sob forte influência da religiosidade e que precisou se reinventar para não ficar isolado do progresso rodoviário que cortava o Centro-Oeste brasileiro durante o governo de Juscelino Kubitschek.
Origens religiosas e a emancipação do município
As raízes da ocupação na região remontam a 1874, quando moradores vindos de Corumbá de Goiás começaram a desbravar terras férteis próximas ao Rio Capivari e ao Córrego Caruru. O pequeno arraial ganhou impulso espiritual e social graças às reuniões religiosas conduzidas por Dona Emerenciana, cujos encontros atraíam fiéis especialmente durante as tradicionais festas em homenagem a Nossa Senhora da Abadia.
Anos mais tarde, em 1895, proprietários locais doaram terras para a consolidação do patrimônio batizado inicialmente como Posse. O núcleo populacional cresceu de forma constante até alcançar o status de distrito em 1943, adotando oficialmente o nome de Abadiânia. Pouco mais de uma década depois, em 1953, a localidade conquistou sua autonomia política e administrativa ao se emancipar formalmente, ganhando o direito de gerir o próprio futuro.
A estratégia geopolítica da rodovia e a mudança de sede
Apesar da recém-conquistada emancipação, a localização geográfica da antiga sede começou a ser vista como um entrave comercial e logístico. O núcleo urbano original estava posicionado de forma distante do grande eixo rodoviário planejado para conectar Brasília a Anápolis e ao restante do país, isolando a população das novas rotas de comércio.
Registros apontam que as discussões sobre a viabilidade da transferência começaram ainda em 1956, impulsionadas por visitas técnicas para definir o traçado da estrada. O engenheiro Bernardo Sayão, figura central nas frentes de obras viárias ligadas à fundação de Brasília, participou diretamente das articulações junto ao então prefeito Oribes Gontijo para viabilizar o plano de mudança.
O planejamento urbano e a efetivação da transferência
O processo ganhou contornos oficiais em 3 de agosto de 1960, quando a Câmara de Vereadores aprovou a Lei Municipal nº 11, autorizando a mudança de endereço da sede. O local escolhido para o novo recomeço foi a Fazenda Soledad, situada estrategicamente ao longo da rodovia, exigindo a desapropriação de 25 alqueires por 255 mil cruzeiros em 1961.
Para desenhar a nova cidade, o agrimensor Nilton Rabello projetou avenidas diagonais que convergiam para uma praça cívica planejada para abrigar a prefeitura, o fórum, agências bancárias, Correios, igreja e cinema. O desenho guardava semelhanças estéticas e conceituais com o plano urbanístico de Goiânia, concebido décadas antes por Attilio Corrêa Lima.
A mudança foi oficialmente efetivada em 15 de setembro de 1963, consolidando o status de Abadiânia como uma genuína cidade nova de relocação. Enquanto o antigo núcleo urbano foi rebaixado à condição de distrito sob o nome de Posse d’Abadia, a nova sede floresceu à beira da rodovia que hoje integra a BR-060, reafirmando a influência duradoura da construção da capital federal sobre o interior goiano.
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