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Impasse no Congresso ameaça retorno da taxa das blusinhas antes das eleições

O cenário político e econômico brasileiro se aquece às vésperas de um prazo crucial que pode redefinir a política de importação de pequenos volumes. A chamada “taxa das blusinhas”, um imposto federal de 20% sobre compras internacionais de até US$ 50 (cerca de R$ 258), está com seu futuro incerto no Congresso Nacional. Uma Medida Provisória (MP) publicada em 13 de maio pela gestão petista suspendeu a cobrança, mas sua validade depende de aprovação parlamentar para se tornar definitiva.

Com a proximidade do dia 8 de setembro, data limite para a votação da MP, o governo enfrenta dificuldades para articular um consenso. Se a medida não for aprovada até lá, perderá a validade, e a taxação será retomada a menos de um mês do primeiro turno das eleições, marcado para 4 de outubro. Este impasse, reportado em 20 de agosto de 2026, coloca em evidência a sensibilidade do tema para a opinião pública e o potencial impacto na avaliação do presidente Lula, que busca a reeleição.

O Cenário de um Impasse Político e Econômico

A comissão mista de senadores e deputados, encarregada de analisar a Medida Provisória, deveria ter sido instalada entre 10 e 14 de agosto, com a definição de um presidente e um relator. No entanto, a instalação foi adiada para 1º de setembro. Apesar da reaproximação entre o presidente Lula e o presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP), e de sinalizações de acordo pela líder do governo no Senado, Teresa Leitão (PT-PE), o processo não avançou como esperado.

O deputado Reginaldo Lopes (PT-MG) é cotado para presidir o colegiado. Contudo, a falta de acordo na primeira tentativa levou o líder do governo no Congresso, Randolfe Rodrigues (PT-AP), a anunciar novas negociações, sem sucesso imediato. A MP da taxa das blusinhas foi a única das seis medidas em pauta que não teve sua definição na data prevista, evidenciando a complexidade e a polarização em torno do tema.

Argumentos em Jogo: Consumo x Indústria Nacional

A discussão sobre a isenção tributária divide opiniões e interesses. De um lado, o governo defende a tese de que a medida beneficia a economia ao ampliar o acesso ao consumo, sem causar impacto significativo no comércio ou na indústria nacional. Essa visão busca valorizar o poder de compra do consumidor, especialmente em um cenário de busca por produtos mais acessíveis.

Do outro lado, entidades representativas do setor produtivo, como a Fecomercio e a Abit (Associação Brasileira da Indústria Têxtil), argumentam que a taxação é essencial para proteger a indústria e o comércio brasileiros. Fernando Pimentel, presidente-executivo da Abit, enfatiza que a busca é por “igualdade de condições” entre produtos nacionais e importados. Sarina Manata, tributarista da Fecomercio, aponta que, apesar do apelo popular, a isenção não reverte riqueza para o Brasil e submete o comércio nacional a alíquotas maiores, mesmo com a taxa de 20% sendo desonerada em relação à alíquota cheia de 60%.

A preocupação se intensificou com os pedidos de recuperação judicial de grandes grupos varejistas, como Casas Bahia e Marabraz, que, apesar de mais resilientes, enfrentam dificuldades. Esse contexto pode contaminar o debate, reforçando a necessidade de proteção ao setor nacional.

O Jogo Eleitoral e os Riscos Políticos

A proximidade das eleições torna a defesa de qualquer posição sobre a taxa das blusinhas uma tarefa arriscada. Um deputado da base governista chegou a classificar a função de relator como “inglória”, dada a impopularidade de defender um imposto ou a vulnerabilidade de manter uma isenção que pode ser vista como prejudicial à indústria. A oposição, por sua vez, também reluta em defender a retomada de um imposto, o que seria incompatível com o discurso liberal e contrário à intervenção estatal na economia.

O nome do senador Eduardo Braga (MDB-AM), relator da reforma tributária e próximo de segmentos produtivos da Zona Franca de Manaus, foi ventilado para a relatoria, mas ele negou interesse. Diante do impasse, o deputado federal Joaquim Passarinho (PL-PA), presidente da Frente Parlamentar do Empreendedorismo, sugeriu adiar a discussão para depois das eleições, o que implicaria na perda de validade da MP e na necessidade de o governo buscar outra via legislativa, como um projeto de lei, para manter a isenção.

A MP já recebeu mais de cem emendas, muitas da oposição, que buscam ampliar o alcance da proposta original, como aumentar o limite isento para US$ 100 e incluir equipamentos e bens industriais na isenção. O ministro Dario Durigan (Fazenda) reiterou o esforço do governo para a instalação da comissão e aprovação da MP. Em um movimento estratégico, a campanha de reeleição de Lula distribuiu um vídeo no qual o presidente expressa confiança na votação da medida por Alcolumbre e pelo presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB).

A Origem da Taxa e a Complexidade Tributária

A “taxa das blusinhas” entrou em vigor em 2024 como um desdobramento da tentativa do governo de conter fraudes na importação de pequenos volumes. Originalmente, a isenção de imposto de importação era destinada a remessas entre pessoas físicas, visando desonerar presentes. No entanto, com a intensificação do comércio eletrônico e a popularização das plataformas internacionais, essa isenção passou a ser utilizada de forma fraudulenta por empresas para evitar a cobrança do imposto em vendas.

A primeira sinalização do governo Lula foi de acabar com a isenção, mas a forte reação negativa levou ao abandono do plano. Posteriormente, o Congresso incluiu a taxação de 20% como um “jabuti” – emenda de assunto alheio ao tema principal – no texto do Mover (Programa Mobilidade Verde e Inovação), sob pressão de varejistas nacionais. A MP em vigor desde maio revogou essa cobrança federal de 20%, mas é importante ressaltar que ela não altera a tributação cobrada pelos estados, o ICMS (Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços), que atualmente varia entre 17% e 20%.

Apesar da revogação do imposto ter sido vista por alguns como uma medida eleitoreira, técnicos dos ministérios da Fazenda e do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (Mdic) se posicionaram contra a isenção, apontando prejuízos para pequenos comerciantes. A complexidade do tema e os múltiplos interesses envolvidos tornam a decisão final um desafio para o Legislativo e o Executivo.

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