Estigma e desinformação sobre HIV ameaçam controle da doença no Brasil
O peso do preconceito na saúde pública
A persistência do estigma social em torno do HIV não é apenas uma questão de comportamento, mas um entrave direto que pode resultar em cerca de 440 mil mortes evitáveis nesta década. O alerta, feito pela iniciativa internacional Tackle HIV, destaca como o medo — seja de realizar o teste, de iniciar o tratamento ou do julgamento alheio — atua como uma barreira invisível, porém letal, para o controle da epidemia global.
Gareth Thomas, ex-jogador de rugby e idealizador do projeto, reforça que o preconceito cria um ciclo de isolamento. “Esse estigma traz impactos enormes para a sociedade em geral: seja o medo de fazer o teste, o medo de tomar os medicamentos ou o medo criado pelo preconceito de conviver com pessoas que vivem com HIV”, afirma. O atleta, que tornou público seu diagnóstico em 2019, utiliza sua trajetória para desmistificar a condição e promover a testagem como um ato de autocuidado.
Lacunas no conhecimento e barreiras à testagem
Embora a ciência tenha avançado a passos largos, a percepção pública sobre o vírus ainda é permeada por mitos. Uma pesquisa conduzida pela Tackle HIV com 2.006 brasileiros revelou que 36% dos entrevistados acreditam que homens heterossexuais não correm risco de contrair o HIV, enquanto 37% possuem a mesma visão equivocada sobre mulheres heterossexuais. Essa falsa sensação de segurança é um dos principais motivos pelos quais a maioria dos brasileiros que cogitaram fazer o teste acabou desistindo da ideia.
A desinformação também atinge a esfera da convivência. Apenas 29% dos participantes da pesquisa sabiam que pessoas sob tratamento eficaz e com carga viral indetectável não transmitem o vírus durante relações sexuais. Além disso, 19% ainda sustentam o preconceito de que quem vive com HIV não pode manter uma vida sexual ativa. Esses dados evidenciam que o desafio atual não é apenas médico, mas também de educação em saúde.
Cenário epidemiológico e metas globais
O Brasil enfrenta um cenário de contrastes. Enquanto as taxas globais de novas infecções e mortes atingiram os menores níveis em 2025, o país faz parte de um grupo de 21 nações onde o número de casos voltou a subir. O Boletim Epidemiológico HIV e Aids 2025 aponta a notificação de 39.216 novos casos no país, com uma concentração expressiva de 38,4% na região Sudeste.
Para reverter esse quadro, o país busca alinhar suas políticas às metas 95-95-95 da ONU: 95% das pessoas diagnosticadas, 95% em tratamento e 95% com carga viral suprimida. O Brasil já atingiu a primeira e a terceira metas, demonstrando a robustez do sistema de saúde. Recentemente, o Governo Federal sinalizou interesse em incorporar ao SUS a PrEP injetável, uma tecnologia de prevenção que pode proteger o usuário por até seis meses, reforçando a estratégia de ampliação do acesso a métodos preventivos.
A importância da informação no combate à Aids
A realização da 26ª Conferência Internacional de Aids no Brasil coloca o país no centro do debate global sobre a doença. A presença de especialistas e ativistas reforça a necessidade de adaptar as estratégias de prevenção às realidades locais. Como pontua Gareth Thomas, o diagnóstico positivo hoje, graças aos avanços da medicina, não representa uma sentença de morte, mas o início de um acompanhamento que permite uma vida plena e saudável.
O Parlamento segue acompanhando os desdobramentos das políticas públicas de saúde e os avanços científicos no combate ao HIV. Nosso compromisso é levar até você informações fundamentadas, que ajudem a combater o estigma e a promover o bem-estar coletivo. Continue acompanhando nossas reportagens para entender como a ciência e a conscientização transformam a sociedade.



