Guerra no Oriente Médio paralisa produção de fertilizantes em Goiás e ameaça centenas de empregos

A instabilidade geopolítica no Oriente Médio reverberou diretamente na economia brasileira, com a paralisação temporária da produção de fertilizantes fosfatados pela Mosaic, uma das maiores empresas do setor globalmente, em sua unidade de Catalão, no sudeste de Goiás. A medida, impulsionada pela escassez global de enxofre, um insumo crucial, coloca em risco mais de 600 empregos diretos e lança incertezas sobre o futuro de centenas de famílias e a economia local.
A crise do enxofre, matéria-prima essencial para a fabricação de fertilizantes como DAP e MAP, é um reflexo direto dos conflitos na região do Golfo Pérsico, principal polo exportador do mineral. A interrupção e o encarecimento do transporte marítimo têm dificultado a chegada do insumo ao Brasil, forçando a Mosaic a reajustar suas operações em diversas unidades pelo país.
Escassez global de enxofre impacta a indústria
A decisão da Mosaic de suspender atividades em Catalão e em outras localidades é uma resposta direta a um cenário complexo de instabilidade geopolítica. A guerra no Oriente Médio não apenas elevou os custos do enxofre, mas também criou restrições significativas nas rotas marítimas internacionais, essenciais para o suprimento global. A demanda crescente por fertilizantes, combinada com a oferta reduzida do insumo, gerou uma pressão sem precedentes sobre os preços e a disponibilidade.
Conforme comunicado da própria empresa, são necessárias aproximadamente quatro toneladas de enxofre para produzir dez toneladas de fertilizantes fosfatados. Diante da severa redução na oferta global e da escalada dos preços, a companhia revisou seu plano operacional para o segundo semestre de 2026, optando por ajustar temporariamente a produção em várias de suas plantas.
Impacto direto em Catalão e a luta por empregos
Em Catalão, a paralisação temporária da unidade de produção de fertilizantes já resultou na demissão de 22 trabalhadores da área de mistura. A principal preocupação agora, segundo o Sindicato Metabase, é com a manutenção dos empregos na unidade de mineração e no terminal da empresa, onde mais de 600 postos de trabalho estão ameaçados. Mário Neto, diretor de comunicação do Metabase, destacou a gravidade da situação, afirmando que o presidente do sindicato, Danilo Candido Pereira, está em São Paulo para negociar com a direção da Mosaic e tentar evitar uma demissão em massa.
A luta do sindicato visa garantir a dignidade e a renda dos trabalhadores, reconhecendo o impacto que uma perda tão significativa de empregos teria na economia de Catalão. Além dos empregados diretos da Mosaic, a paralisação afeta indiretamente terceirizados, o comércio local e uma vasta rede de fornecedores, ampliando o alcance da crise para toda a comunidade.
Cenário nacional e medidas de mitigação
A unidade de Catalão não é a única afetada pelas medidas temporárias da Mosaic. Outras operações da empresa em Candeias (BA), Palmeirante (TO), Sorriso (MT), Uberaba (MG) e Paranaguá (PR) também enfrentam readequações. A Mosaic já havia paralisado atividades em Araxá (MG), colocou ativos à venda e anunciou a hibernação gradual do complexo de Uberaba a partir de setembro, evidenciando a abrangência do problema em nível nacional.
Em nota, a Mosaic informou que o processo está sendo conduzido com foco na segurança, transparência e mitigação dos impactos para todos os envolvidos, desde funcionários e fornecedores até clientes, comunidades e agricultores. A empresa está avaliando alternativas para o suprimento de matérias-primas e mantém diálogo constante com representantes sindicais, parceiros comerciais e autoridades governamentais, buscando soluções para a crise.
Direitos dos trabalhadores e o futuro incerto
Para os trabalhadores já desligados da unidade de mistura de fertilizantes em Catalão, o sindicato conseguiu negociar benefícios adicionais. Além das verbas rescisórias previstas em lei e do Fundo de Garantia, cada trabalhador receberá um mês extra de salário e terá a extensão do plano de saúde por três meses para si e seus dependentes. Em casos de dependentes gestantes, a manutenção do plano de saúde foi assegurada até o nascimento do bebê, oferecendo um alívio temporário em meio à incerteza.
A duração das restrições de produção da Mosaic permanece incerta, dependendo da estabilização dos preços do enxofre, da normalização das cadeias globais de suprimentos, da reabertura de rotas marítimas internacionais e da evolução do cenário geopolítico. A empresa reafirma seu compromisso com a produção de fosfato e espera retomar a plena capacidade operacional assim que o fornecimento global de enxofre for normalizado, mas o horizonte para essa normalização ainda é nebuloso.
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