Saúde

Desconhecimento sobre prevenção do câncer atinge um em cada quatro brasileiros

O desafio da conscientização sobre fatores de risco

Um levantamento inédito revela uma lacuna preocupante na saúde pública nacional: um em cada quatro brasileiros desconhece que o câncer é uma doença passível de prevenção. Os dados integram o relatório Mais Dados Mais Saúde – Percepções da população brasileira sobre fatores de risco para o câncer, divulgado recentemente. O estudo, que ouviu 6,5 mil pessoas em todo o país, aponta que, embora o conhecimento sobre os perigos do tabagismo esteja consolidado, outros hábitos cotidianos ainda não são associados à oncologia pela maioria da população.

A pesquisa foi conduzida pelas organizações Umane e Vital Strategies, com o apoio do Instituto Devive e parceria técnica do Instituto Nacional de Câncer (Inca). O cenário é de alerta, especialmente diante da projeção do Inca de que o Brasil deve registrar cerca de 781 mil novos casos da doença por ano no triênio 2026/2028. Esse aumento de 10,9% em relação ao período anterior é impulsionado pelo envelhecimento populacional e pela persistência de hábitos de vida que favorecem o desenvolvimento de tumores.

Percepção desigual entre hábitos e doenças

O estudo destaca uma disparidade clara na percepção dos riscos. Enquanto 90,5% dos brasileiros reconhecem o cigarro como um fator de risco, a associação entre o estilo de vida e o câncer perde força em outros campos. Apenas 48,3% dos entrevistados identificam o sedentarismo como um facilitador para a doença, mesmo com evidências científicas robustas sobre o impacto da inatividade física na saúde sistêmica.

Fatores como o consumo de bebidas alcoólicas, embutidos e alimentos ultraprocessados também apresentam índices de reconhecimento inferiores ao do tabaco. Segundo Luciana Grucci Moreira, chefe da Divisão de Pesquisa Populacional do Inca, o sucesso na conscientização sobre o fumo é fruto de décadas de políticas públicas, como restrições de ambientes, impostos elevados e campanhas informativas constantes. O desafio agora é replicar essa eficácia em outras frentes, como a alimentação e a prática de exercícios.

O papel das políticas públicas na mudança de comportamento

A especialista ressalta que a informação por si só não basta para alterar comportamentos. Fatores socioeconômicos, como renda, preço dos alimentos e o ambiente urbano, desempenham um papel decisivo. Por exemplo, incentivar a atividade física exige que as cidades ofereçam espaços seguros e iluminados para a prática esportiva. A ausência dessas condições estruturais limita a capacidade do cidadão de fazer escolhas mais saudáveis, independentemente do seu nível de conhecimento sobre o tema.

O relatório também traz dados sobre o aleitamento materno, revelando que quatro em cada dez brasileiros ignoram que a amamentação atua como um fator de proteção contra o câncer de mama. Além disso, a obesidade e o sobrepeso são reconhecidos como riscos por apenas 54,1% da população. Esses números reforçam a necessidade de estratégias de comunicação e políticas públicas integradas que facilitem o acesso a uma vida mais equilibrada.

Comportamento dos jovens e o futuro da prevenção

A análise por faixas etárias aponta que os jovens de até 24 anos apresentam maior resistência à mudança de hábitos. Esse grupo lidera o consumo de ultraprocessados e bebidas adoçadas sem a intenção de reduzir a ingestão. No caso das bebidas alcoólicas, que estão associadas a pelo menos oito tipos de câncer, a parcela de jovens que consome e não pretende diminuir o hábito é superior à observada nas faixas etárias mais elevadas.

Para enfrentar esse cenário, o Instituto Nacional de Câncer defende que o combate ao câncer deve ser encarado como uma agenda transversal. A conscientização é o primeiro passo, mas o suporte estatal para garantir opções saudáveis é o que determinará a redução das taxas de incidência a longo prazo. Continue acompanhando O Parlamento para se manter informado sobre as principais discussões de saúde pública e os desdobramentos das políticas de prevenção no Brasil.

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