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Justiça de Goiás promove quatro policiais por bravura em atuação no desastre do Césio-137

Quase quatro décadas após o maior acidente radiológico do mundo em área urbana, a coragem de quem esteve na linha de frente do isolamento e socorro em Goiânia ganha um novo capítulo oficial. Quatro oficiais da reserva da Polícia Militar de Goiás (PM-GO) foram promovidos por ato de bravura devido à atuação direta durante a crise do Césio-137, ocorrida em setembro de 1987. A decisão, fruto de um longo processo judicial, foi publicada no Diário Oficial do Estado nesta segunda-feira (25).

Reconhecimento tardio e justiça histórica para os veteranos

A promoção desses militares não é apenas uma progressão na carreira, mas um reconhecimento do Estado sobre os riscos invisíveis e letais a que foram expostos. Segundo a Polícia Militar, a decisão partiu do Poder Judiciário de Goiás, que validou o mérito funcional dos policiais após sindicâncias comprovarem que eles atuaram em áreas de alta contaminação sem o equipamento de proteção adequado, algo inexistente na época para tal magnitude de desastre.

Os militares beneficiados pela medida são figuras que vivenciaram o caos dos primeiros dias da descoberta da radiação. O 1º sargento Antônio Carlos Pereira foi promovido à graduação de Subtenente PM, com efeitos a partir de março de 2026. Na mesma linha, o 1º sargento Mauro Rosa de Castro também alcança o posto de Subtenente em abril de 2026. Já o 1º sargento Reginaldo Reis Chagas do Carmo teve sua promoção a Subtenente reconhecida com efeitos retroativos a maio de 2024, enquanto o 2º sargento Rômulo Almeida dos Santos passa a ser 1º Sargento a partir de março de 2025.

O papel dos militares na contenção da crise radiológica

Durante os meses críticos de 1987, a Polícia Militar teve a missão hercúlea de isolar os focos de contaminação espalhados pela capital goiana. Reginaldo Reis, por exemplo, teve sua participação efetiva reconhecida no atendimento direto às vítimas e no cerco da Rua 57, no Centro, um dos pontos mais críticos do desastre. Os outros três militares — Mauro Rosa, Antônio Carlos e Rômulo Almeida — foram citados por suas atuações de risco iminente, mantendo a ordem pública em locais onde o “pó azul” brilhante já havia se espalhado.

Naquela época, o desconhecimento sobre a física nuclear transformou o trabalho policial em uma missão quase suicida. Sem dosímetros ou roupas plumbíferas nos primeiros momentos, os agentes lidaram com o pânico da população e a necessidade de evacuação de áreas densamente povoadas. O reconhecimento por bravura exige a comprovação de atos que excedem o dever comum, expondo a vida a perigo real em prol da coletividade, algo que o Judiciário entendeu como plenamente configurado neste caso.

O legado do Césio-137 e a luta por direitos

O acidente com o Césio-137 começou quando dois catadores de papel encontraram um aparelho de radioterapia abandonado nas ruínas de um antigo hospital. A violação da cápsula liberou o cloreto de césio, um pó que emitia uma luz azul fascinante no escuro. O que parecia algo mágico tornou-se uma tragédia que deixou quatro mortos imediatos, centenas de contaminados e milhares de pessoas monitoradas pelo resto da vida. Para entender a cronologia completa deste evento, é possível consultar os arquivos históricos da Comissão Nacional de Energia Nuclear.

A promoção desses quatro militares joga luz sobre a situação de centenas de outros servidores e civis que ainda buscam reparação ou assistência médica especializada. O lapso temporal de 37 anos entre o fato e a promoção demonstra a complexidade jurídica de provar o nexo causal entre a atuação no desastre e os danos ou riscos sofridos. Para muitos veteranos, a batalha nos tribunais é a última tentativa de garantir que sua dedicação não seja esquecida pela história oficial do estado.

Trâmites legais e o posicionamento da Polícia Militar

Em nota oficial, a PM-GO esclareceu que as promoções seguem rigorosamente os requisitos técnicos e legais. A corporação enfatizou que, no caso específico do Césio-137, a análise do mérito e das provas foi realizada pela esfera judicial. Cabe ao Estado, portanto, o cumprimento das sentenças que reconheceram o direito retroativo dos oficiais. O tempo de espera, segundo a nota, deveu-se ao andamento regular dos processos movidos pelos próprios interessados.

A reparação, embora tardia, serve como um marco para a memória institucional de Goiás. Ela reforça a importância de protocolos de segurança e do suporte contínuo àqueles que são convocados para atuar em situações de exceção. A história do Césio-137 continua sendo uma ferida aberta, mas atos como este ajudam a cicatrizar a sensação de abandono que muitos profissionais da segurança pública relataram ao longo das últimas décadas.

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