A revolta no sepultamento: como o medo e a desinformação marcaram o adeus às vítimas do Césio-137 em Goiânia
O ano de 1987 entrou para a história do Brasil com uma mancha indelével de pânico e dor. Um de seus capítulos mais chocantes foi o sepultamento das primeiras vítimas do acidente com o Césio-137, em Goiânia. Longe de ser um adeus pacífico, a cena no cemitério Parque da Paz se transformou em um palco de protestos violentos, onde o luto foi sobrepujado pelo medo irracional e pela desinformação. Moradores, aterrorizados pela possibilidade de contaminação, arremessavam pedras e tentavam, a todo custo, impedir o enterro, transformando o transporte dos caixões em uma corrida sob ataque.
O epicentro dessa tragédia, que se tornaria o maior acidente radiológico fora de usinas nucleares do mundo, foi a remoção indevida de uma cápsula de Césio-137 de uma clínica de radioterapia abandonada. Levada para um ferro-velho no Setor Aeroporto, a substância, um pó brilhante e aparentemente inofensivo, atraiu a curiosidade de muitos. Sem o menor conhecimento dos riscos mortais da radiação, adultos e crianças manipularam o material, encantados com seu brilho azulado no escuro, selando seu destino e o de milhares de outros que, direta ou indiretamente, seriam expostos à contaminação.
Entre as vítimas mais simbólicas desse drama estavam Leide das Neves, uma menina de apenas 6 anos que se fascinou pelo pó, e Maria Gabriela Ferreira, de 37 anos. Seus corpos, devastados pela radiação, eram o testemunho silencioso de uma tragédia cujas dimensões ainda não eram totalmente compreendidas pela sociedade. O temor de que a radiação pudesse “escapar” dos caixões e se espalhar, contaminando o solo e o ar, alimentava a fúria e o desespero da população. Essa crença, embora cientificamente infundada para corpos encapsulados, era a expressão pura do pânico diante do invisível e do desconhecido.
O sepultamento sob ataque
Registros da época, como os do acervo da TV Anhanguera, mostram a intensidade daquele dia. Ambulâncias que transportavam os caixões foram atacadas com pedras e gritos de “tira daqui, isso é lixo radioativo”, como recordou a jornalista Mirian Tomé, que cobriu o caso. A cena era caótica: policiais tentavam conter a multidão enfurecida enquanto os caixões de chumbo, pesados e lacrados para evitar qualquer vazamento, eram levados para seus túmulos. O protesto não era apenas contra as vítimas, mas contra o próprio medo de um inimigo invisível, reforçado pela ausência de informações claras e confiáveis.
Desinformação e a lenta resposta
A verdade é que nem mesmo as equipes de resgate e autoridades estavam plenamente preparadas para lidar com um desastre dessa magnitude. A dimensão da contaminação e a forma de contê-la eram um território inexplorado no Brasil. “Não estávamos preparados. Não tinha proteção nenhuma”, confessou o tenente-coronel da PM Luiz Gonzaga Barros Carneiro, que atuou diretamente nas ações. Essa falta de preparo institucional se refletiu na dificuldade de comunicar à população os verdadeiros riscos e como agir, abrindo caminho para boatos e temores exagerados, mas compreensíveis, dada a natureza da ameaça da radiação.
O acidente de Goiânia não se encerrou com os sepultamentos. Ele desencadeou uma série de desdobramentos que ecoam até hoje. Milhares de pessoas foram submetidas a exames e descontaminação, muitas delas enfrentando problemas de saúde pública a longo prazo, como câncer e outras enfermidades causadas pela radiação. Além das sequelas físicas, a tragédia deixou marcas psicológicas profundas. Vítimas e seus familiares foram estigmatizados, sofrendo preconceito e ostracismo. A simples menção de “Goiânia” ou “Césio-137” carregava um peso de desconfiança e receio em muitas partes do país, um reflexo da ignorância e do pânico generalizado que a desinformação pode gerar.
O legado de um desastre
Do ponto de vista ambiental e de infraestrutura, o Césio-137 resultou na geração de mais de 6 mil toneladas de lixo radioativo. Esses resíduos, muitos deles acondicionados em sarcófagos de concreto, estão armazenados em um depósito provisório em Abadia de Goiás, com monitoramento constante, e representarão um desafio por séculos, impactando o planejamento e a gestão de resíduos perigosos no país. A experiência forçou o Brasil a revisar e aprimorar seus protocolos de emergência radiológica, saúde pública e comunicação em crises, embora o caminho ainda seja longo e exija vigilância contínua para evitar futuras ocorrências.
As imagens dos enterros sob protesto e a história do Césio-137 servem como um lembrete contundente da importância da informação, da ciência e da preparação em face de crises. Elas sublinham como o medo, quando não é endereçado com clareza e empatia, pode levar a reações extremas e desumanas. A tragédia de 1987 é uma cicatriz na memória brasileira, mas também uma lição vital sobre a responsabilidade de proteger vidas e o meio ambiente, e a necessidade imperativa de combater a desinformação com rigor jornalístico e científico, garantindo que a verdade prevaleça sobre o pânico.
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Fonte: https://g1.globo.com




