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Quilombo Kalunga: Maior do Brasil tem tombamento histórico celebrado pelo Iphan

O maior **quilombo** do Brasil, o **Kalunga**, localizado no coração da **Chapada dos Veadeiros**, em **Goiás**, celebra um marco histórico: o **tombamento** de seu vasto território pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (**Iphan**). A medida, aguardada por anos, confere reconhecimento oficial e proteção legal a uma área de mais de 260 mil hectares, lar de cerca de 8 mil **quilombolas** distribuídos em 39 comunidades. Esta conquista, firmada em parceria com o Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae), não é apenas um ato burocrático, mas a validação de uma história tricentenária de **resistência**, **ancestralidade** e **preservação cultural** que ecoa por todo o país.

O povo Kalunga, que habita regiões entre os municípios de Cavalcante, Monte Alegre de Goiás e Teresina de Goiás, é descendente direto de africanos escravizados que, há mais de 300 anos, encontraram refúgio e liberdade nas montanhas e vales do **Cerrado goiano**. Longe das fazendas de garimpo de ouro, eles construíram um modo de vida autônomo, muitas vezes em convivência e parentesco com povos indígenas. A palavra “Kalunga”, oriunda do bantu, dialeto africano, carrega o significado de ‘sagrado’, e para a comunidade, representa um **tesouro cultural**, sinônimo de **identidade**, **luta**, **conquista**, **fé** e **coragem**.

Uma História de Luta e Reconhecimento Progressivo

A jornada até o **tombamento** pelo **Iphan** é marcada por décadas de persistência. O primeiro estudo antropológico que mapeou as 39 comunidades data de 1972, revelando a complexidade e a riqueza desse povo. Em 1991, o governo de **Goiás** reconheceu o território como Sítio Histórico e Patrimônio Cultural, um passo crucial. Já no ano 2000, a Fundação Cultural Palmares validou a existência do território, e a tão necessária regularização fundiária foi iniciada em 2004 pelo Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (**Incra**). Mais recentemente, o **Quilombo Kalunga** alcançou projeção internacional ao ser reconhecido pela Organização das Nações Unidas (ONU) como o primeiro Território e Área Conservada por Comunidades Indígenas e Locais (Ticca) do Brasil, sublinhando sua importância na **conservação ambiental** e **cultural**.

Lideranças como Cirilo dos Santos Rosa, de 71 anos, nascido e criado no Engenho II, uma das comunidades em Cavalcante, são a memória viva dessa trajetória. Pai de 13 filhos, Cirilo personifica a força da **oralidade**, que, junto ao artesanato, danças, gastronomia e festas religiosas, mantém as **tradições Kalunga** vibrantes e transmitidas de geração em geração. Ele e outros líderes foram pilares na defesa do território e da cultura frente a desafios como a pressão por terras e a invisibilidade social.

O Significado do Tombamento e Seus Desdobramentos

De acordo com o **Iphan**, o **tombamento** institucional de um **quilombo**, instituído pela Portaria nº 135/2023, é mais do que um título; ele representa a proteção legal de sítios e documentos que guardam as reminiscências históricas e a memória da resistência contra a escravidão. Para o **Quilombo Kalunga**, isso significa um reconhecimento robusto de seu valor intrínseco como **patrimônio cultural** e uma ferramenta poderosa para a salvaguarda de seu legado e território contra ameaças.

O processo de reconhecimento, contudo, ainda está em desenvolvimento. Um convênio assinado entre o **Iphan** e o Sebrae visa viabilizar recursos para o “Inventário dos Bens Culturais e das Potencialidades Econômicas das Comunidades Quilombolas Kalunga”. Este inventário será fundamental para mapear as riquezas culturais e as oportunidades de **desenvolvimento sustentável** na região. Priscila Vilarinho, gestora de turismo do Sebrae, explicou que a complexidade logística, as dificuldades de acesso e as condições climáticas (como as chuvas) influenciam o cronograma, com previsão de finalização para o início de 2028. Até lá, visitas técnicas, reuniões com lideranças e oficinas de campo para coletar o saber tradicional são etapas cruciais.

A expectativa é que, com a conclusão do processo, o **Quilombo Kalunga** não apenas obtenha proteção legal aprimorada, mas também um impulso significativo no **desenvolvimento territorial sustentável**, gerando renda e novas oportunidades por meio da valorização de sua cultura. O Sebrae, inclusive, já atua com a comunidade desde 2002, com iniciativas que formatam rotas turísticas ligadas à cultura, ancestralidade, ervas medicinais e bem-estar, aproveitando a riqueza natural e cultural da região.

Futuro Promissor: Tradição e Desenvolvimento Andam Juntos

A agricultura familiar e o **turismo de base comunitária** já são pilares da economia **Kalunga**, permitindo sua autonomia e subsistência. Em meio às serras e paisagens exuberantes, os Kalungas não são apenas moradores, mas verdadeiros **guardiões do Cerrado**, com um conhecimento profundo sobre a flora e fauna local. A valorização desse conhecimento e das práticas sustentáveis é um dos maiores legados que o **tombamento** pode fortalecer.

A nova geração também assume papéis de destaque. Dominga Natália Moreira dos Santos Rosa, 37 anos, filha de Cirilo, é um exemplo claro da transição entre o conhecimento tradicional e a gestão pública. Professora e empreendedora no turismo, ela atua na Associação Comunitária do Engenho II (AKCE) e, há um ano, comanda a Secretaria de Turismo e Cultura de Cavalcante. Sua visão une a preservação da identidade **Kalunga** com as oportunidades de desenvolvimento que o **tombamento** e o turismo cultural podem trazer, garantindo que o legado de seus ancestrais continue a florescer em um futuro promissor.

A celebração do **tombamento** do **Quilombo Kalunga** pelo **Iphan** é um momento de profunda relevância não só para **Goiás**, mas para todo o Brasil. Ele reforça a importância de reconhecer, proteger e valorizar a história e a cultura dos **povos tradicionais** e **comunidades quilombolas**, que são pilares da identidade nacional e da **diversidade cultural** do país. Este é um passo crucial para garantir que a voz e a **resistência** desses guardiões do patrimônio e do meio ambiente continuem a ressoar forte. Para acompanhar mais notícias sobre patrimônio, cultura e os desafios e conquistas dos povos tradicionais em todo o Brasil, continue lendo O Parlamento, seu portal de informação relevante e contextualizada.

Fonte: https://g1.globo.com

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