Putin revela preocupação com ataques de Kiev e a escalada das tensões.

Em uma rara e significativa admissão, o presidente russo Vladimir Putin reconheceu nesta terça-feira (23 de junho de 2026) o impacto dos ataques com drones ucranianos em território russo. Segundo o líder do Kremlin, as ações de Kiev visam “desestabilizar a sociedade russa e criar incertezas sobre as Forças Armadas”. A declaração, feita durante um evento com cadetes de academias militares na sede do governo, sublinha uma crescente preocupação com a escalada do conflito, que se estende para além das linhas de frente na Ucrânia e atinge alvos cada vez mais próximos de Moscou.
Embora Putin tenha mantido um discurso otimista sobre o campo de batalha na Ucrânia, país que invadiu em 2022 e do qual controla cerca de 20% dos territórios, o pedido por mais medidas de proteção às cidades russas revela a seriedade com que o Kremlin encara a ofensiva ucraniana. A tensão crescente não se limita ao front militar, mas se espalha para as esferas econômica e social, gerando apreensão tanto na população quanto na elite política russa.
A escalada dos ataques e o impacto interno
A estratégia de Kiev tem se concentrado em uma guerra assimétrica, utilizando drones e mísseis para atingir alvos estratégicos dentro da Rússia. Analistas especulam sobre a origem dos mísseis de cruzeiro, que podem ser os ucranianos Flamingo ou uma nova remessa de modelos Storm Shadow/Scalp-EG franco-britânicos. O foco principal tem sido o sistema energético russo, uma tática que visa compensar o aumento das receitas do Kremlin com petróleo, que atingiram níveis recordes desde 2022 após a suspensão de sanções americanas, em parte devido ao impacto da guerra no Irã nos preços globais.
Apesar da retórica de Putin, que atribui a impossibilidade de diálogo com Volodimir Zelenski aos ataques ucranianos contra alvos civis — sem, contudo, mencionar os bombardeios russos contra o país vizinho —, a realidade no terreno mostra um cenário de crescente desgaste. Nesta terça-feira, por exemplo, três pessoas morreram em Krivii Rih, cidade natal do presidente ucraniano, em mais um episódio da brutalidade do conflito.
Repercussões econômicas e o setor de energia russo
A ofensiva ucraniana contra a infraestrutura energética russa já começa a mostrar resultados. De acordo com consultorias especializadas, a produção de refinarias russas e a exportação de petróleo cru foram afetadas entre maio e junho, registrando quedas de 25% e 15%, respectivamente. A situação é tão preocupante que, na segunda-feira, o governo russo realizou uma reunião para discutir a importação de alguns derivados de petróleo.
Alexander Novak, o czar do setor de energia russo, descreveu a situação como “complexa” e afirmou que o governo considera um veto à exportação de diesel, uma medida que teria impacto direto em países como o Brasil, e confirmou o uso de reservas estratégicas. A escassez de gasolina e o racionamento já são uma realidade em regiões mais distantes do país, como Khabarovsk, no Extremo Oriente, evidenciando a pressão sobre a economia russa.
A situação crítica na Crimeia e no sul da Ucrânia
A região da Crimeia, península anexada da Ucrânia em 2014, representa um ponto de particular preocupação para o Kremlin. Em Sebastopol, a principal cidade da região e sede da Frota do Mar Negro, medidas drásticas foram implementadas: o transporte público foi fechado a partir das 22h, e estabelecimentos como cafés, lojas e restaurantes devem encerrar suas atividades às 20h. As luzes da cidade estão sendo diminuídas durante a noite para dificultar a aquisição de alvos por mísseis e drones ucranianos.
Nesta terça-feira, os ucranianos também reivindicaram ter atingido uma ponte ferroviária que liga a região ocupada de Kherson, no sul do país, à península. O eventual estrago, ainda não totalmente dimensionado, pode comprometer um dos trunfos de Putin: a ligação direta por terra entre a Crimeia e a Rússia, que antes dependia exclusivamente da vulnerável ponte do estreito de Kertch. Este desenvolvimento adiciona mais uma camada de complexidade e risco à logística militar russa na região.
Cenários geopolíticos e os temores no Kremlin
O comportamento de Putin e a escalada de tensões são acompanhados com apreensão pela elite russa. Fontes próximas ao Kremlin, ouvidas pela Folha de S.Paulo, revelam um temor crescente de que os generais mais linha-dura possam convencer o presidente a empregar uma arma nuclear tática contra os ucranianos, visando sua submissão. Embora armas táticas sejam teoricamente menos potentes e projetadas para uso em campo de batalha, a opção nuclear desencadearia uma crise global sem precedentes.
Outra alternativa igualmente preocupante, citada por uma segunda fonte com acesso ao centro do poder, é uma ação militar contra algum Estado Báltico. Tal movimento teria como objetivo levar a crise para a aliança militar OTAN, em um momento em que o ex-presidente americano Donald Trump estaria em processo de desengajamento do bloco. Este cenário, antes considerado de longo prazo, agora é visto como mais imediato caso a desestabilização mencionada por Putin se confirme.
Apesar do apoio de 74% ao conflito entre os russos em maio (seis pontos a mais que no mês anterior, segundo o Centro Levada), a popularidade de Putin, embora alta em 79%, deslizou os mesmos seis pontos desde dezembro. A retórica de ameaça tem sido uma constante na estratégia russa, com Putin sugerindo retaliação nuclear desde o início da guerra para limitar o apoio ocidental a Kiev. Nesta terça-feira, o influente vice-chanceler Serguei Riabkov reforçou a temperatura, acusando os EUA de se afastarem de compromissos assumidos na cúpula Trump-Putin no Alasca, em agosto do ano passado. Riabkov também mencionou o monitoramento de exercícios militares poloneses perto do corredor de Suwalki, um ponto estratégico entre Belarus e o exclave russo de Kaliningrado, visto como um potencial flashpoint para a OTAN. A tensão foi ainda mais elevada na segunda-feira (22), quando bombardeiros russos Tu-160 realizaram uma missão de patrulha estratégica no Ártico, sendo interceptados por caças noruegueses F-35.
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