Saúde

Uso indiscriminado de corticoides acende alerta para risco de cegueira e glaucoma

O hábito comum de recorrer a colírios, pomadas ou comprimidos à base de corticoides para aliviar inflamações rápidas, como alergias oculares ou irritações, esconde um perigo silencioso: o desenvolvimento de glaucoma. Especialistas alertam que a automedicação e o uso prolongado dessas substâncias sem supervisão médica podem causar danos irreversíveis ao nervo óptico, evoluindo para a perda definitiva da visão.

O alerta ganha contornos de urgência pela voz de Roberto Murad Vessani, presidente da Sociedade Brasileira de Glaucoma (SBG). Segundo o especialista, o cenário atual configura um grave problema de saúde pública, exigindo maior rigor na dispensação desses fármacos, que hoje são utilizados para tratar desde sinusites até dores inflamatórias crônicas.

Mecanismo de ação e danos oculares

Os corticoides atuam reduzindo inflamações, mas seu uso contínuo interfere na fisiologia ocular. Eles dificultam a drenagem natural do líquido presente no globo ocular, provocando um acúmulo que eleva perigosamente a pressão intraocular. Quando essa pressão permanece alta por períodos prolongados, o nervo óptico sofre lesões que não podem ser revertidas.

Além dos riscos aos olhos, o uso indiscriminado dessas substâncias impacta todo o organismo. Pacientes podem enfrentar descontrole glicêmico, hipertensão, retenção de líquidos, ganho de peso e enfraquecimento ósseo. A facilidade de acesso a esses medicamentos, muitas vezes comprados sem receita, estimula o autotratamento, ignorando os efeitos colaterais sistêmicos.

A busca por controle e regulação

Diante da gravidade, a SBG, em conjunto com o Conselho Brasileiro de Oftalmologia (CBO) e a Sociedade Brasileira de Oftalmologia Pediátrica (SBOP), formalizou uma nota pública enviada à Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) e ao Ministério da Saúde. O objetivo é pleitear um controle mais rígido, similar ao que já ocorre com os antibióticos, exigindo retenção de receita para evitar o consumo sem orientação profissional.

A preocupação se estende também aos consultórios. Vessani ressalta que médicos de diversas especialidades — como ortopedistas, reumatologistas e pediatras — prescrevem corticoides para tratar condições crônicas sem sempre considerar o histórico oftalmológico do paciente. Cerca de 90% das pessoas que já possuem glaucoma são sensíveis a esses medicamentos, o que pode agravar drasticamente a doença preexistente.

Grupos de risco e conscientização

O risco aumenta com a idade. A partir dos 40 anos, a prevalência de glaucoma tende a dobrar a cada década. Em pacientes idosos, que frequentemente necessitam de corticoides para tratar outras condições de saúde, o monitoramento da pressão intraocular torna-se indispensável. O mesmo rigor deve ser aplicado a crianças, que, por vezes, utilizam colírios de forma crônica para alergias, correndo risco de desenvolver catarata precoce ou glaucoma.

As entidades médicas seguem em campanha para sensibilizar tanto a população quanto a classe médica sobre a importância de avaliar os riscos antes de iniciar tratamentos prolongados. A conscientização é a ferramenta principal para evitar que o alívio imediato de uma inflamação se transforme em um diagnóstico de cegueira evitável.

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