Nova Veneza, Goiás: Festival Italiano celebra efervescente herança musical

A cidade de Nova Veneza, localizada na região Metropolitana de Goiânia, se prepara para mais uma edição de seu tradicional Festival Italiano, um evento que transcende a mera celebração gastronômica e cultural, transformando o município em um vibrante berço musical. Com início nesta quinta-feira (28) e seguindo até domingo (31), a festividade é um reflexo da profunda herança deixada pelos imigrantes europeus, que ressoa nas canções e nos talentos locais, mantendo viva uma tradição sonora que remonta a séculos.
A influência italiana na região não se restringe apenas à arquitetura ou à culinária; ela se manifesta de forma potente na música. O que começou com canções sacras, muito antes do período do Renascimento na Europa, encontrou solo fértil em Goiás, culminando em um cenário musical efervescente. Nova Veneza é, de fato, o lar de diversas bandas e artistas que se destacam no contexto regional, participando de festivais e concursos, e perpetuando um legado que é, acima de tudo, familiar.
Raízes Profundas: A Herança Musical dos Imigrantes
A história da música em Nova Veneza é intrinsecamente ligada à chegada dos imigrantes italianos. Muitos trouxeram consigo não apenas seus pertences, mas também suas melodias, seus instrumentos e a paixão por cantar. Essa tradição foi passada de geração em geração, moldando a identidade cultural do município. O Festival Italiano serve como um palco para essa manifestação, mas a música pulsa na cidade durante todo o ano, em rodas de conversa, ensaios e apresentações locais.
Um exemplo vivo dessa herança é Valdir Amaral, um cantor veneziano de 71 anos com mais de 50 de carreira. Sua inspiração veio diretamente do avô, um imigrante italiano vindo de Treviso, que reunia a família para tocar acordeão. Valdir descobriu seu talento aos oito anos, em uma competição de canto infantil na própria Nova Veneza. Ele relembra que, nos domingos, a diversão da época era se reunir em um clube, onde todos podiam cantar e concorrer a prêmios, um ritual que fomentou a paixão pela música em muitos jovens.
De Geração em Geração: Talentos que Mantêm a Chama Acesa
A trajetória de Valdir Amaral, que integrou a Banda Maecantes por duas décadas e hoje se apresenta no festival com um show italiano, é um testemunho da força dessa herança. Para ele, o evento faz o “coração bater mais forte” pela língua e pelas canções italianas. Mas a tradição não se limita aos veteranos; ela se renova a cada edição do festival, com o surgimento de novos nomes e projetos.
O Coral Infantil Voccini di Veneza, formado por alunos da Escola Municipal Militarizada Frain Faquim, é um pilar dessa renovação. Desde 2008, o coral se apresenta anualmente, e a maestrina Irailde Pereira, de 60 anos, orgulha-se de ver “crianças que já participaram hoje são artistas profissionais, que inclusive já fizeram apresentações solo no festival”. A participação no grupo é aberta a todos os alunos, independentemente de sua descendência italiana, reforçando o caráter inclusivo e cultural da iniciativa.
Novos Sons e Horizontes: O Florescer da Cena Local
A influência musical de Nova Veneza transcende as fronteiras da descendência. Weber Rosa, de 42 anos, que não possui sangue italiano, foi profundamente influenciado pelo cenário musical da cidade. Hoje, ele faz parceria com Alex Mayer, formando o duo Tenores di Veneza, e também integra a Banda Santa Fé. Esta banda, formada em 2006, fará sua primeira apresentação na festividade nesta edição, contando com cinco dos seis integrantes nascidos em Nova Veneza, sendo três deles descendentes de imigrantes.
Outras histórias familiares reforçam essa conexão. Jêny Regis Buenço, que se apresenta com os irmãos Rian e Reinaldo Júnior, recorda a infância que o impulsionou: “minha mãe sempre cantou, ela é apaixonada por música. Cresci com meu pai escutando Vicente Celestino, também um cantor descendente de imigrantes italianos, nas tardes de domingo. Ele ligava a radiola e a gente ficava ao redor, ouvindo as músicas”. A família de Reinaldo Tavares, engenheiro e neto de um italiano que chegou a Nova Veneza nos anos 1950, também é um exemplo, com Reinaldo tendo aprendido música com o avô e emocionando o pai, Reinaldo Nicola, com as lembranças das rodas de canto. Esses relatos demonstram como a música é um elo poderoso, capaz de conectar gerações e preservar memórias.
O Festival como Catalisador Cultural e Social
O Festival Italiano de Nova Veneza não é apenas um evento anual; é um catalisador cultural e social que fortalece a identidade da comunidade. Ao proporcionar um palco para artistas locais, tanto veteranos quanto emergentes, e ao incentivar a participação de crianças e jovens no coral, o festival garante a continuidade e a evolução dessa rica herança musical. Ele celebra o passado, vive o presente e planta sementes para o futuro, reforçando os laços comunitários e a paixão pela cultura italiana.
A música, nesse contexto, é mais do que entretenimento; é uma forma de expressão, de memória e de pertencimento. Ela narra a história dos imigrantes, suas lutas e suas alegrias, e continua a inspirar novas gerações a manterem viva essa chama. O evento, portanto, é um convite a mergulhar nas sonoridades que fazem o coração de Nova Veneza bater mais forte, celebrando a vida e a cultura em cada nota.
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