Notícias

Inteligência artificial e redes sociais redefinem a manipulação eleitoral no Brasil

Após quase quatro décadas acompanhando a evolução das campanhas eleitorais, desde os grandes comícios até a era da inteligência artificial, observa-se uma mudança qualitativa na forma como a opinião pública e o voto são moldados. A política brasileira, que já atravessou o domínio da televisão e a explosão das redes sociais, agora enfrenta um novo desafio: a manipulação que transcende a simples desinformação, atuando diretamente no ambiente social onde o eleitor forma suas convicções.

Tradicionalmente, a preocupação central residia na disseminação de informações falsas, as chamadas fake news, que buscavam convencer parcelas da sociedade de uma mentira. Contudo, a inteligência artificial generativa introduziu uma complexidade ainda maior, permitindo que sistemas automatizados simulem interações humanas, produzam comentários, sustentem conversas e adaptem linguagens para criar uma percepção coletiva artificial.

A Nova Fronteira da Manipulação Política

A manipulação política contemporânea não se limita mais a falsificar fatos. O novo território de disputa é a distorção da percepção sobre o consenso social. Um cidadão que acessa uma rede social e encontra centenas de comentários, aparentemente espontâneos, criticando um candidato pode ser levado a crer que essa é a opinião predominante, mesmo que grande parte dessas manifestações seja artificialmente produzida.

Nesse cenário, a inteligência artificial não precisa necessariamente convencer o eleitor de uma mentira, mas sim de que “todo mundo pensa da mesma maneira”. É a passagem da manipulação da informação para a manipulação dos referenciais sociais utilizados para interpretá-la, um fenômeno que desafia os pilares da democracia ao colocar cidadãos para debater com uma “multidão artificial” cuja existência desconhecem.

O Poder da Automação e os “Neurobots”

Um estudo recente, publicado pela revista Veja em setembro, revelou a dimensão desse fenômeno. Desenvolvida pelo Instituto Brasileiro para a Regulamentação da Inteligência Artificial (IRIA), em parceria com a plataforma integrada Sentinela Eleitoral/Polijetro, a investigação sobre contaminação cognitiva analisou mais de 33 mil contas em ecossistemas políticos brasileiros. Os resultados indicaram que aproximadamente 24% dos perfis examinados apresentavam características de provável automação.

É crucial interpretar esse número com responsabilidade. Ele não significa que 24% dos brasileiros são robôs, nem que todas as contas classificadas sejam fictícias, já que pessoas e organizações reais também utilizam ferramentas automatizadas. O indicador refere-se à amostra e aos critérios da pesquisa, não comprovando, isoladamente, manipulação eleitoral ou mudança de votos. A questão científica relevante reside em como essa automação participa da circulação de mensagens e da construção de percepções de apoio ou rejeição, e quais efeitos produz sobre o debate público, especialmente com a evolução dos “neurobots”. Diferentemente dos robôs antigos, esses agentes de IA generativa podem desenvolver interações contextualizadas, adaptar comportamentos e construir a aparência de uma identidade social, tornando-se cada vez mais difíceis de identificar como artificiais.

Comunidades Digitais e o “Capital Algorítmico Herdado”

Outro elemento que complexifica o cenário é a participação de comunidades digitais, como fã-clubes de artistas e celebridades, que se organizam em torno de causas políticas. Essas comunidades, embora não devam ser confundidas com operações automatizadas, possuem um “capital algorítmico herdado”, ou seja, uma infraestrutura preexistente de audiência, relacionamento e distribuição construída fora da política.

Elas reúnem não apenas seguidores, mas vínculos emocionais, confiança e hábitos de mobilização que uma campanha tradicional levaria meses para desenvolver. A psicóloga e pesquisadora Gisele Meter, que colabora com o IRIA, destaca a diferença fundamental entre alcançar alguém e influenciá-lo. Uma mensagem pode atingir milhões, mas sem produzir confiança, identificação ou mudança de opinião. A capacidade de mobilização dessas comunidades, portanto, não se reflete apenas nas métricas tradicionais de alcance, exigindo uma nova leitura sobre a dinâmica da influência política.

Transparência e Regulação na Era da Inteligência Artificial

A interferência das plataformas de inteligência artificial na produção de conteúdo político também levanta questões institucionais urgentes. Em 14 de outubro, testes noticiados pela imprensa apontaram respostas inconsistentes da IA da Meta a solicitações de materiais eleitorais envolvendo diferentes candidatos, como Lula e Flávio Bolsonaro. Embora a empresa tenha informado ter adotado mecanismos de segurança e realizado correções, o episódio sublinha a necessidade de transparência, previsibilidade e critérios verificáveis.

É fundamental questionar quem estabelece os critérios para a produção de manifestações políticas por IA, quem fiscaliza sua aplicação e como distinguir uma medida legítima de segurança de uma restrição inconsistente que afeta a igualdade de participação política. As decisões dessas plataformas deixam de ter apenas consequências comerciais ou tecnológicas; elas passam a integrar as condições concretas em que a liberdade de expressão é exercida.

A Urgência da Investigação Científica e seus Desafios

A ciência já oferece sinais da importância das relações sociais na mobilização política, como um experimento publicado na Nature em 2012, envolvendo 61 milhões de usuários do Facebook. Pesquisas posteriores, incluindo um estudo previsto para 2025 na mesma revista, investigam como a exposição a posições divergentes pode intensificar a polarização e como sistemas de inteligência artificial podem influenciar preferências declaradas em condições experimentais. É imperativo que a sociedade e as instituições compreendam a dimensão desse problema, transformando hipóteses em certezas através de investigações aprofundadas, sem, contudo, ignorar o fenômeno por falta de conhecimento total de seus efeitos.

Diante dessas transformações, O Parlamento reitera seu compromisso em trazer informação relevante, atual e contextualizada. Continue acompanhando nossas análises aprofundadas para entender os desafios e desdobramentos desse cenário complexo que redefine a democracia e a participação cidadã na era digital.

Artigos relacionados

Botão Voltar ao topo