Goiânia: projeto de Museu e Memorial do Césio-137 avança na Câmara para preservar memória

Goiânia se aproxima de concretizar um projeto de grande relevância histórica e social: a criação do Museu e Memorial do Césio-137. A proposta, que busca preservar a memória do maior acidente radiológico do mundo fora de uma usina nuclear, deu um passo significativo na última semana, ao ser aprovada pela Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) da Câmara Municipal. Agora, o projeto aguarda duas votações em plenário antes de seguir para a sanção do Executivo Municipal, marcando um momento crucial para a capital goiana.
Este memorial não é apenas um espaço físico, mas um símbolo da resiliência de uma cidade que enfrentou uma tragédia sem precedentes. O acidente com o Césio-137, ocorrido em 13 de setembro de 1987, deixou um rastro de dor, com quatro mortes confirmadas e mais de mil pessoas atingidas direta ou indiretamente pela contaminação radioativa. A iniciativa visa honrar as vítimas, educar futuras gerações e garantir que os ensinamentos desse trágico episódio não sejam esquecidos.
Um Legado de Dor e a Busca por Memória
A ideia de um memorial em Goiânia não é nova. Em 2011, o então vereador Túlio Maravilha (MDB) apresentou um projeto semelhante, que previa a instalação de um museu na Rua 57, no Centro da cidade, local emblemático do acidente. Contudo, a matéria acabou arquivada. A atual proposta, de autoria do vereador Lucas Kitão (PL), retoma e fortalece essa necessidade, embora o ponto exato do memorial ainda dependa de definição pela prefeitura.
A inspiração para o projeto vem de iniciativas de preservação histórica de grande impacto global, como o Museu e Memorial do World Trade Center, em Nova York. “Nossa ideia é ter um local em Goiânia, assim como existe em Nova York, nos Estados Unidos, no Museu e Memorial do World Trade Center. O local preserva a história e a memória das vítimas do atentado de 11 de setembro de 2001. É importante termos esse mesmo espaço aqui”, afirmou o vereador Lucas Kitão, ressaltando a importância de um espaço que não apenas relembre, mas também ensine.
A Proposta do Museu e Memorial do Césio-137
O projeto prevê um espaço multifuncional, com uma área dedicada à exposição permanente, um local de homenagem e preservação histórica, e também um ambiente de convivência. O objetivo é triplo: homenagear as vítimas, preservar a memória histórica e seu profundo impacto social, e servir como um abrigo cultural e educativo. Escolas, universidades e visitantes de todo o mundo poderão encontrar no memorial um centro de aprendizado sobre os riscos da radiação e a importância da segurança nuclear.
O vereador Kitão enfatiza a singularidade do evento na história brasileira e mundial. “Nossa história tem o maior acidente radiológico do mundo. Está em nossa história e deixou um legado de dor, estigmatização e desinformação, mas também revelou a solidariedade de profissionais de saúde, bombeiros, militares e cidadãos que atuaram heroicamente no socorro às vítimas”, destacou. Esse reconhecimento da solidariedade e do heroísmo é um componente vital para a narrativa do futuro memorial.
O Acidente Radiológico de Goiânia: Uma Ferida Aberta
A tragédia de 1987 começou de forma inocente, quando dois catadores de recicláveis, Roberto dos Santos e Wagner Mota Pereira, encontraram um aparelho de radioterapia abandonado no Instituto Goiano de Radioterapia. Ao desmontá-lo, liberaram uma cápsula de Césio-137, um isótopo radioativo altamente perigoso. O material, que emitia um brilho azulado no escuro, rapidamente se espalhou, contaminando centenas de pessoas e causando mortes e sequelas irreparáveis.
Uma parte da peça foi levada para o ferro-velho de Devair Ferreira, que, fascinado pelo brilho, abriu a cápsula e mostrou o pó radioativo a vizinhos, amigos e familiares. Dias depois, os primeiros sintomas começaram a surgir: tontura, vômitos e diarreia, afetando principalmente Devair e sua esposa, Maria Gabriela. A contaminação atingiu seu ponto mais trágico com Leide das Neves, de apenas 6 anos, filha de Ivo Ferreira (irmão de Devair), que ingeriu o Césio-137 durante uma refeição e não sobreviveu.
Apenas em 29 de setembro de 1987, o alerta de radiação foi dado. A Comissão Nacional de Energia Nuclear (CNEN) interveio, transferindo mais de 112 mil pessoas para um esquema de triagem no Estádio Olímpico, onde foram submetidas a intensos banhos de descontaminação. O acidente resultou nas mortes de Maria Gabriela Ferreira, Leide das Neves Ferreira, Israel Baptista dos Santos e Admilson Alves de Souza. Além disso, 249 pessoas apresentaram contaminação significativa, sendo monitoradas e tratadas. Centenas de locais foram desinfectados ou removidos, e a cidade de Goiânia enfrentou um complexo processo de descontaminação. Para mais informações sobre o acidente, você pode consultar o site da Comissão Nacional de Energia Nuclear (CNEN).
Preservação Atual e o Futuro da Memória
Atualmente, a preservação técnica da memória do acidente com o Césio-137 está concentrada em Abadia de Goiás, onde o Centro Regional de Ciências Nucleares da CNEN abriga mais de 6 mil toneladas de rejeitos contaminados, enterrados em uma área de 32 alqueires. Embora esse local seja crucial para a gestão dos resíduos, a ausência de um memorial em Goiânia, a cidade que foi o epicentro da tragédia, é uma lacuna que o novo projeto busca preencher.
A criação do Museu e Memorial do Césio-137 em Goiânia representa um compromisso com a história e com o futuro. É uma forma de transformar a dor em aprendizado, a estigmatização em conscientização, e a desinformação em conhecimento. Ao oferecer um espaço acessível e educativo, a capital goiana não apenas honrará suas vítimas, mas também se consolidará como um centro de referência na discussão sobre segurança radiológica e os impactos de desastres tecnológicos.
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