Césio-137: quase 40 anos depois, mãe de Leide das Neves desabafa sobre dor e desafios: ‘A gente revive tudo’
Quase quatro décadas após o **acidente radiológico** com o **Césio-137** que marcou a história de **Goiânia** e do Brasil, a dor e os desafios das **vítimas** continuam sendo uma realidade palpável. Recentemente, a exibição de uma minissérie televisiva que retrata a tragédia reacendeu memórias dolorosas e trouxe à tona o desabafo de **Lourdes das Neves Ferreira**, mãe de **Leide das Neves**, a menina de apenas 6 anos que se tornou o símbolo mais pungente dessa catástrofe. “Sempre mexe um pouco com a gente, com a nossa saúde, a gente revive tudo”, lamentou Lourdes, hoje com 74 anos, em uma declaração que ressoa a persistência de um sofrimento que o tempo não conseguiu apagar.
A Memória Viva e o Resgate da Dor
A minissérie “Emergência Radioativa”, inspirada nos fatos reais, forçou Lourdes a confrontar novamente a morte de sua filha, agora dramatizada para um público global. Embora a experiência de reviver a tragédia seja excruciante – sua personagem é chamada Catarina e Leide, Celeste – a mãe de Leide das Neves destaca a importância de manter o assunto em evidência. “É um assunto que a gente não pode calar, não pode deixar cair no esquecimento”, enfatiza. Para ela, a visibilidade alcançada pela produção é crucial para que a sociedade compreenda a situação atual das **vítimas** do **Césio-137**, que ainda clamam por amparo e **apoio médico** e social.
A Luta Diária por Dignidade e Amparo
A realidade de Lourdes é um espelho das dificuldades enfrentadas por muitos afetados. Sua **pensão** do governo do estado, somada a um auxílio federal, totaliza aproximadamente R$ 954,00 – sua única fonte de renda. Contudo, empréstimos comprometem grande parte desse valor, deixando-a com apenas R$ 400 a R$ 500 para todas as despesas básicas mensais. “Tenho que decidir se pago as despesas de casa ou se compro os **remédios**”, revela, expondo o drama de uma escolha diária entre necessidades vitais. Problemas de **saúde** como dores na coluna, pressão alta, colesterol e complicações oftalmológicas a impedem de trabalhar, tornando a situação ainda mais delicada.
Além do custeio de **tratamentos** e **medicamentos**, Lourdes enfrenta a preocupação de perder a casa onde mora, doada pelo governo, devido a débitos de IPTU. Seu apelo é singelo, mas profundo: “Eu só quero ter um final de vida digno”. Essa demanda por dignidade ressoa com a luta de inúmeras outras pessoas que, assim como ela, foram marcadas pela **contaminação radiológica** e hoje veem suas vidas definhadas pela falta de apoio contínuo e pela defasagem de benefícios.
O Projeto de Reajuste: Uma Esperança, um Debate
Em resposta à pressão e à necessidade evidente, o Governo de Goiás apresentou recentemente um **projeto de lei** visando atualizar os valores pagos aos beneficiários do **Césio-137**. A proposta busca reajustar as **pensões** para aqueles que atuaram na **descontaminação** da área, na vigilância do depósito provisório em Abadia de Goiás e no atendimento de saúde às **vítimas** diretas. Para os radiolesionados com contato direto ou exposição superior a 100 RAD, o benefício passaria de R$ 1.908,00 para R$ 3.242,00. Já para os demais beneficiários, a correção seria de R$ 954,00 para R$ 1.621,00. Embora represente uma melhoria, a medida chega quase quatro décadas após o **acidente**, levantando discussões sobre a celeridade e a adequação do amparo estatal.
Césio-137: Relembrando a Tragédia que Marcou o Brasil
O **acidente radiológico** teve início em 13 de setembro de 1987, quando dois catadores, **Wagner Mota Pereira** e **Roberto Santos Alves**, removeram um aparelho de **radioterapia** abandonado do antigo Instituto Goiano de Radioterapia (IGR), em **Goiânia**. Sem saber do perigo, levaram a peça para casa, onde removeram o lacre de uma cápsula contendo **Césio-137** em pó. O brilho azul intenso da substância no escuro despertou a curiosidade e se tornou uma atração fatal. A peça foi vendida a **Devair Alves Ferreira**, dono de um ferro-velho, que distribuiu fragmentos para familiares e amigos, atraídos pelo aspecto lúdico do material. A manipulação desprotegida levou a sintomas imediatos como náuseas, tonturas, vômitos e diarreias, que se espalharam por várias famílias.
A gravidade da situação só começou a ser compreendida em 28 de setembro, quando **Maria Gabriela**, esposa de Devair, levou a cápsula em uma sacola plástica à Vigilância Sanitária. O físico **Walter Mendes** foi o responsável por identificar o material e confirmar os alarmantes níveis de **radiação** no dia seguinte, 29 de setembro, dando início ao isolamento das áreas afetadas e a uma operação de **descontaminação** sem precedentes no país. Embora os dados oficiais registrem quatro mortes diretas – **Leide das Neves**, **Maria Gabriela**, **Israel** e **Admilson** – o **impacto social**, **psicológico** e na **saúde** de centenas de pessoas se estende até os dias atuais, com sequelas que permanecem uma ferida aberta na memória coletiva brasileira.
O Legado de uma Ferida Aberta
A história do **Césio-137** não é apenas um capítulo trágico da história do Brasil; é um lembrete vívido da necessidade de vigilância, da complexidade das consequências da **exposição radiológica** e, sobretudo, da responsabilidade social de amparar aqueles que carregam as marcas invisíveis e visíveis de uma catástrofe. A voz de Lourdes, mãe de **Leide das Neves**, simboliza a persistência da dor e a urgência de que o Estado e a sociedade não esqueçam o compromisso com as **vítimas**. A luta por **dignidade** e **amparo** é uma pauta que transcende o tempo, exigindo atenção contínua e políticas públicas eficazes.
O caso do **Césio-137** em **Goiânia** é um lembrete contundente das complexas camadas de uma tragédia que se estende por décadas, afetando vidas e comunidades. Continuar a acompanhar os desdobramentos e a voz de seus protagonistas é fundamental para a construção de uma sociedade mais consciente e justa. Para se manter sempre bem informado sobre este e outros temas relevantes, continue navegando em **O Parlamento**, seu portal de notícias comprometido com a informação aprofundada, atual e contextualizada.
Fonte: https://g1.globo.com




