Césio-137: A cronologia e o legado permanente do maior acidente radiológico do Brasil
Há mais de três décadas, **Goiânia** foi palco do maior **acidente radiológico** do mundo fora de usinas nucleares, quando uma cápsula de **Césio-137**, retirada de um aparelho de radioterapia abandonado, espalhou **contaminação** e morte pela capital goiana. O episódio, que deixou um rastro de quatro mortos e mais de mil pessoas afetadas, continua a reverberar na vida de muitos sobreviventes que, mesmo após tanto tempo, ainda relatam sofrer com a falta de **apoio médico** adequado e o esquecimento por parte do poder público. A tragédia, que ganhou nova atenção recente com o lançamento de uma minissérie, é um lembrete vívido dos perigos da **radiação** e da urgência em garantir a segurança no manuseio de materiais radioativos.
Classificado pela Comissão Nacional de Energia Nuclear (Cnen) como nível 5 na Escala Internacional de Eventos Nucleares (Ines) – onde 7 é o máximo, como Chernobyl –, o acidente de 1987 demonstrou o poder devastador de uma substância que, na ignorância, fascinou pela sua peculiar emissão de um brilho azul. A **tragédia** só não tomou proporções ainda maiores devido à ação de cidadãos e especialistas que, ao perceberem a gravidade da situação, agiram com rapidez, iniciando a complexa jornada de contenção e mitigação. No entanto, o trauma e as sequelas físicas e psicológicas da exposição ao **Césio-137** persistem, evidenciando um legado de dor e a constante luta das **vítimas** por reconhecimento e assistência.
O brilho azul que virou pesadelo: a cronologia da contaminação
A sequência de eventos que culminou na **contaminação radiológica** começou com uma mistura perigosa de curiosidade e descuido. Em 13 de setembro de 1987, Wagner Mota Pereira e Roberto Santos Alves, em busca de sucata, removeram um aparelho de radioterapia de um prédio abandonado no Setor Central, em um terreno que pertencia à Santa Casa de Misericórdia. A motivação era vender a peça a um ferro-velho, mas ao remover o lacre da cápsula, eles revelaram a substância radiativa que mudaria suas vidas e as de muitos outros.
Cinco dias depois, em 18 de setembro, Devair Alves Ferreira, dono de um ferro-velho na Rua 26-A, no Setor Aeroporto, comprou o equipamento. Fascinado pelo **brilho azul** emitido pelo pó, que imaginava ser algo místico ou valioso, Devair levou a peça para casa, onde o material foi manipulado e distribuído entre amigos e familiares que o visitavam. A **substância desconhecida**, que na verdade era cloreto de césio, um sal altamente radiativo, passou de mão em mão, causando uma **exposição generalizada** e involuntária. Crianças brincaram com o pó, famílias o admiraram, selando o destino de muitos com a ingestão e contato com as partículas.
A saúde das pessoas começou a deteriorar rapidamente. Sintomas como náuseas, vômitos, diarreia e lesões de pele alertaram para algo grave. Em 28 de setembro, Maria Gabriela Ferreira, esposa de Devair, com a intuição de que a “pedra brilhante” era a causa das enfermidades, levou a cápsula até a Vigilância Sanitária, transportando-a de ônibus em uma sacola plástica. Sua coragem e perspicácia foram cruciais para a identificação do problema e evitaram que a **tragédia** se estendesse ainda mais, embora ela própria já estivesse severamente contaminada.
A confirmação veio em 29 de setembro, quando o físico Walter Mendes Ferreira, munido de um aparelho de medição de radiações ionizantes, identificou o risco iminente. A descoberta desencadeou uma resposta emergencial: o acidente foi oficialmente reconhecido e comunicado à Cnen e, subsequentemente, à Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA). Em 30 de setembro, técnicos da Cnen, incluindo o físico José de Júlio Rozental, chegaram a **Goiânia**, iniciando um gigantesco esforço de mapeamento e descontaminação dos locais atingidos pela **radiação**.
O mês de outubro de 1987 foi marcado por uma operação de saúde pública sem precedentes. O Estádio Olímpico transformou-se em um centro de triagem e monitoramento, onde 112.800 pessoas foram avaliadas para **contaminação**. Desse total, 249 indivíduos foram identificados com algum nível de radiação no corpo, e 129 necessitaram de **acompanhamento médico** permanente, um indicador da dimensão do problema e do longo caminho de reabilitação que teriam pela frente.
As vítimas e o peso da memória
As consequências mais trágicas se materializaram com a morte das primeiras vítimas. Em 23 de outubro, Leide das Neves Ferreira, de apenas 6 anos, sobrinha de Devair, e Maria Gabriela Ferreira, de 35, faleceram. Leide, que brincou com o pó radiativo, é um símbolo da inocência perdida e da crueldade da **radiação**. Maria Gabriela, apesar de sua ação heroica ao levar a cápsula às autoridades, sucumbiu à exposição severa. Seus óbitos, junto aos de Israel Batista dos Santos (20 anos) em 27 de outubro e Admilson Alves de Souza (18 anos) em 28 de outubro – ambos funcionários do ferro-velho que manipularam a fonte –, chocaram o país e evidenciaram a invisibilidade do perigo radioativo. Todos foram sepultados em caixões revestidos de chumbo, uma medida que selou não apenas seus corpos, mas também a memória de uma **tragédia** que jamais poderia ser esquecida.
Em 25 de outubro, os rejeitos do **Césio-137**, incluindo materiais contaminados, foram encaminhados para o então distrito de Abadia de Goiás, a pouco mais de 20 km da capital, onde permanecem armazenados em um depósito provisório, sob um piso de concreto a céu aberto. A gestão desses **resíduos radioativos** é um desafio contínuo, demandando monitoramento constante e segurança máxima, e serve como um lembrete físico e permanente da necessidade de protocolos rigorosos para o descarte e armazenamento de tais materiais.
Legado e a persistente luta por apoio
O **acidente com Césio-137** deixou marcas que vão muito além dos óbitos e da **contaminação** imediata. Para os sobreviventes, o fardo é pesado: doenças crônicas como câncer, deficiências físicas, traumas psicológicos profundos e, muitas vezes, o estigma social. Muitos relatam dificuldades persistentes para acessar **atendimento médico especializado**, com a sensação de que o compromisso inicial de apoio se desfez com o tempo. A luta por medicamentos, tratamentos e reconhecimento dos direitos é uma realidade diária para centenas de famílias em **Goiânia** e arredores, uma denúncia que ressalta a complexidade da assistência a longo prazo para **vítimas** de desastres ambientais e tecnológicos.
Apesar das tentativas da cidade de “apagar” a memória do evento, as cicatrizes persistem na paisagem urbana e, principalmente, na vida dos atingidos. O **Césio-137** redefiniu a forma como o Brasil lida com resíduos perigosos e emergências nucleares, impulsionando a criação de protocolos mais rígidos e a conscientização sobre os riscos. No entanto, a experiência goiana é também um alerta constante sobre a necessidade de investimento contínuo em pesquisa, fiscalização e, acima de tudo, em um sistema de **saúde** robusto e preparado para acolher e assistir as **vítimas** de eventos de tamanha magnitude, garantindo que o legado não seja apenas de memória, mas de aprendizado e solidariedade efetiva.
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Fonte: https://g1.globo.com




