Pequi sem espinhos: a inovação goiana que desafia a tradição culinária do Cerrado

Quem cresceu em Goiás ou mantém laços estreitos com a cultura do Cerrado certamente ouviu, ainda na infância, um aviso quase sagrado: pequi não se morde. A regra, passada de geração em geração, existe para evitar que os pequenos espinhos escondidos sob a polpa amarela causem ferimentos dolorosos na boca. No entanto, uma inovação tecnológica desenvolvida em solo goiano promete mudar essa relação histórica com o fruto.
Pesquisa de duas décadas transforma o fruto
O avanço é fruto de um trabalho minucioso de 25 anos conduzido pela Emater Goiás em parceria com a Embrapa Cerrados. O projeto não buscou criar uma nova espécie em laboratório, mas sim selecionar e multiplicar plantas que já apresentavam mutações naturais de ausência de espinhos. O resultado desse esforço de longo prazo culminou no lançamento de três cultivares específicas: GOBRS 101, GOBRS 102 e GOBRS 103.
O processo de seleção foi rigoroso, envolvendo a análise de um vasto banco de germoplasma que hoje conta com mais de 1.600 pequizeiros. Essas plantas, localizadas em unidades de pesquisa em cidades como Goiânia, Anápolis, Porangatu e Araçu, passaram por sucessivas avaliações de safra para garantir que a característica da ausência de espinhos fosse mantida e produtiva para o cultivo comercial.
Segurança e novas possibilidades de consumo
A principal mudança trazida pela cultivar GOBRS 101, por exemplo, é a superfície lisa do endocarpo — o caroço. Ao eliminar a camada de espinhos, o fruto torna-se muito mais seguro para o consumo direto. Além disso, a facilidade no manuseio abre portas para novas formas de processamento industrial, permitindo que a polpa e a amêndoa sejam extraídas com maior eficiência e menor desperdício.
Apesar da inovação, é fundamental que o consumidor mantenha a cautela. A Embrapa reforça que as variedades tradicionais, repletas de espinhos, continuam sendo a grande maioria nas feiras e mercados. A recomendação é clara: não se deve morder qualquer pequi por impulso. A identificação da procedência é essencial, já que a novidade ainda está em fase de expansão produtiva, com as primeiras mudas distribuídas prioritariamente para agricultores familiares e viveiristas credenciados.
Impacto econômico e cultural no Cerrado
O pequi ocupa um lugar central na economia e na identidade de Goiás, que já figurou como o segundo maior produtor do país. A introdução dessas novas variedades não pretende substituir o fruto nativo, mas sim oferecer uma alternativa que valorize ainda mais a cadeia produtiva regional. O interesse dos produtores tem sido alto, superando, em diversos momentos, a capacidade imediata de fornecimento de mudas pelos órgãos responsáveis.
A ciência, ao intervir em uma característica tão marcante do pequi, não apaga a tradição, mas a expande. O conselho de não morder o fruto, que por décadas definiu a experiência gastronômica goiana, agora convive com a possibilidade técnica de um consumo mais livre. Para acompanhar os desdobramentos dessa tecnologia e outras inovações que transformam o cotidiano do nosso estado, continue acompanhando as reportagens de O Parlamento, seu portal de referência em informação de qualidade e credibilidade.
Para mais detalhes técnicos sobre as cultivares, consulte o portal oficial da Embrapa.




