Acolhimento especializado é essencial para a saúde mental de mulheres após perda gestacional
O luto silencioso que exige atenção especializada
A interrupção involuntária de uma gravidez é uma experiência que, embora frequente, permanece envolta em um silêncio social profundo. Para muitas mulheres, o momento da perda gestacional — que pode ocorrer até a 20ª semana — não é apenas um evento biológico, mas o início de um processo de luto complexo e, muitas vezes, solitário. Especialistas apontam que a negligência no acolhimento dessas pacientes pode agravar quadros de sofrimento psíquico, tornando o suporte profissional uma necessidade urgente de saúde pública.
Kalyane Ribeiro, que viveu essa experiência aos 32 anos após um longo período de tentativas, descreve o sentimento como a entrada em um “buraco” isolado. “As pessoas que estão do lado de fora não conseguem saber o que tem lá”, relata. A falta de compreensão de amigos e familiares, que frequentemente tentam minimizar a dor com frases sobre “tentar de novo”, ignora que o luto não se trata de substituição, mas da perda de um projeto de vida e de um vínculo afetivo.
Impactos biológicos e psicológicos da perda
O trauma da perda gestacional é multifatorial. Segundo o obstetra Romulo Negrini, vice-presidente da Comissão Nacional Especializada em Assistência ao Abortamento, Parto e Puerpério da Febrasgo, é comum que a mulher experimente tristeza profunda, culpa, ansiedade e distúrbios do sono. O médico ressalta que essas reações são esperadas e humanas, não configurando necessariamente uma patologia psiquiátrica imediata.
Contudo, o fator hormonal não deve ser subestimado. A psiquiatra Andréa Cristina Galastri explica que a queda brusca dos hormônios após a interrupção da gravidez atua de forma semelhante a uma tensão pré-menstrual severa, intensificando a sensibilidade emocional. O alerta vermelho surge quando esse sofrimento se torna paralisante. Se sintomas como insônia, choro ininterrupto e perda de apetite persistirem por mais de 15 dias a um mês, o quadro exige intervenção médica, psicoterapia e, em casos específicos, suporte farmacológico.
A necessidade de uma postura proativa na medicina
Para o obstetra Eduardo Felix Martins Santana, professor da Unifesp, o sistema de saúde precisa evoluir para uma abordagem mais humanizada e ativa. Ele defende que os profissionais não devem aguardar que a paciente retorne ao consultório já em estado de depressão profunda para oferecer suporte. A proatividade das sociedades médicas e dos órgãos reguladores é fundamental para difundir protocolos de assistência que incluam o acompanhamento psicológico desde o diagnóstico da perda.
O desafio é transformar a prática clínica em um espaço de acolhimento constante. “A gente precisa que os médicos corram atrás dessa assistência”, afirma Santana. A ideia é que, ao reconhecer as fases de negação, raiva e tristeza, o profissional consiga oferecer um suporte que previna o agravamento do luto, garantindo que a mulher não precise enfrentar o processo de recuperação emocional sem amparo técnico e humano.
Redes de apoio e a busca por conexão
Na ausência de espaços institucionais de escuta, muitas mulheres têm recorrido a comunidades digitais para compartilhar suas vivências. Kalyane Ribeiro, que hoje vive em Campinas, transformou sua dor em uma rede de apoio online e no livro Ainda me Sinto Mãe. A iniciativa conecta pessoas de diferentes gerações, desde adolescentes até mulheres que carregam o luto há décadas, provando que a necessidade de falar sobre a perda é universal e atemporal.
O acolhimento, seja ele profissional ou comunitário, é o primeiro passo para a reconstrução. O Ministério da Saúde reforça que, em momentos de crise, é vital buscar ajuda em serviços de saúde e conversar com pessoas de confiança. O acompanhamento contínuo é essencial para que o luto, embora doloroso, possa ser processado de maneira saudável.
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