Projeto de inteligência artificial de estudante brasileira mapeia feminicídios e ganha reconhecimento internacional

A invisibilidade de dados sobre a violência contra mulheres é um desafio persistente, com registros muitas vezes fragmentados em notas policiais, reportagens locais e documentos dispersos. Foi para transformar essa lacuna em informação organizada e acionável que a estudante cearense Yanna Francisca Nogueira Queiroz desenvolveu um projeto inovador, que não apenas mapeia feminicídios, mas também revela padrões antes imperceptíveis, conquistando reconhecimento internacional.
Sua iniciativa, que combina o poder da inteligência artificial com a análise geoespacial, oferece uma nova perspectiva sobre a demografia e as circunstâncias desses crimes brutais no Ceará. O trabalho de Yanna destaca o potencial da tecnologia para enfrentar problemas sociais complexos, fornecendo dados cruciais para a formulação de políticas públicas mais eficazes.
A complexidade dos dados sobre feminicídio
A violência de gênero, em suas formas mais extremas como o feminicídio, raramente se manifesta de maneira clara e unificada nos levantamentos oficiais. A ausência de um sistema robusto de coleta e organização de dados faz com que muitas informações valiosas se percam. Reportagens locais, boletins de ocorrência e registros isolados, embora importantes, não conseguem, por si só, traçar um panorama completo da situação, dificultando a compreensão das dinâmicas e a identificação de áreas de maior risco.
Essa dispersão de informações impede que gestores públicos e pesquisadores tenham acesso a um quadro detalhado, essencial para a criação de estratégias de prevenção e combate à violência. É nesse contexto que a proposta de Yanna Queiroz se torna fundamental, ao propor uma metodologia que unifica e interpreta esses dados.
“Rastreando a Demografia do Feminicídio no Ceará”: uma abordagem tecnológica
O projeto de Yanna, intitulado “Rastreando a Demografia do Feminicídio no Ceará (2022–2025) Através do Aprendizado de Máquina e Análise Cartográfica”, é um exemplo notável de como a tecnologia pode ser aplicada para o bem social. A metodologia empregada é sofisticada e multidisciplinar, integrando três pilares essenciais: o processamento de linguagem natural (PLN), o aprendizado de máquina e a análise geoespacial.
Para desenvolver a ferramenta, a estudante analisou mais de 5 mil reportagens e registros textuais. Utilizando o PLN, o sistema foi treinado para extrair informações cruciais desses documentos, como a idade da vítima, sua cor da pele, a localidade do crime, a data e as circunstâncias específicas de cada ocorrência. Em seguida, o aprendizado de máquina permitiu que esses dados brutos fossem convertidos em informações demográficas, estatísticas e cartográficas, oferecendo uma leitura muito mais ampla e contextualizada da violência de gênero no estado.
Resultados e padrões revelados pelo sistema
Os resultados da pesquisa, abrangendo o período de 2022 a junho de 2025, são alarmantes e reveladores. O sistema de Yanna identificou 174 vítimas de feminicídio no Ceará. A análise demográfica revelou que quase metade dessas vítimas eram mulheres negras, um dado que sublinha a interseccionalidade da violência de gênero com questões raciais.
Outro achado significativo foi que 48,7% dos casos ocorreram dentro do contexto de relações íntimas, envolvendo parceiros ou ex-parceiros, o que reforça a necessidade de políticas focadas na proteção de mulheres em seus relacionamentos. Além disso, o uso do software QGIS para análise geográfica permitiu a criação de mapas temáticos, localizando as áreas com maior concentração de casos. O levantamento também indicou um aumento preocupante no índice de violência letal contra mulheres, que passou de 1,02 em 2022 para 1,25 em 2024 a cada 100 mil mulheres. A acurácia do modelo Random Forest, utilizado no projeto, foi de impressionantes 98,77%, atestando a robustez e a confiabilidade da ferramenta.
O impacto e o futuro da pesquisa sobre feminicídio
A pesquisa de Yanna Francisca Nogueira Queiroz transcende o âmbito acadêmico, apresentando uma ferramenta prática e poderosa para o enfrentamento do feminicídio. Ao tornar visíveis dados antes fragmentados, o projeto oferece subsídios concretos para a elaboração de políticas públicas mais assertivas, campanhas de conscientização direcionadas e ações de prevenção que realmente alcancem as populações mais vulneráveis.
A capacidade de identificar padrões demográficos e geográficos permite que as autoridades atuem de forma mais estratégica, alocando recursos onde são mais necessários e desenvolvendo intervenções específicas para cada contexto. Este tipo de iniciativa é fundamental para transformar a maneira como a sociedade e o Estado abordam a violência contra a mulher, movendo-se de uma resposta reativa para uma abordagem proativa e baseada em evidências. Para mais informações sobre a violência de gênero no Brasil, consulte dados oficiais aqui.
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