Cozinha industrial no CT da Anapolina gera embate legal e acusações entre gestões

A tranquilidade do Centro de Treinamento (CT) da Associação Atlética Anapolina, localizado no bairro Esperança, em Anápolis, foi abalada por uma intensa disputa judicial e uma série de acusações mútuas que colocam em lados opostos a Associação Atlética Anapolina (AAA) e a Anapolina SAF. O cerne do conflito reside na instalação e operação de uma cozinha industrial dentro das dependências do CT, uma estrutura que, segundo relatos, produz centenas de refeições diárias destinadas a hospitais municipais da cidade.
disputa: cenário e impactos
O caso ganhou destaque na última sexta-feira, 05 de junho de 2026, quando veio a público um documento formalizando a solicitação de indenização e o desmonte da estrutura. Este embate não apenas expõe as complexidades da gestão de um clube de futebol em transição para o modelo de Sociedade Anônima do Futebol (SAF), mas também levanta questões sobre a utilização de patrimônios esportivos para fins comerciais e sociais, e a necessidade de clareza nos acordos entre as partes envolvidas.
A origem do conflito: cozinha em foco no CT
A controvérsia teve início com a instalação de uma cozinha industrial no CT da Anapolina pela empresa LG Alimentação. De acordo com a Associação Atlética Anapolina (AAA), a autorização para tal instalação partiu da Anapolina SAF, entidade que, segundo a AAA, não detém a propriedade ou posse direta do Centro de Treinamento. A Associação alega que não foi consultada, notificada ou obteve qualquer tipo de contrapartida pela utilização de seu espaço.
O documento que formaliza a queixa, datado de 27 de maio de 2026, detalha que a área ocupada pela LG Alimentação está equipada com maquinário pesado, exaustores e depósitos de gás, operando uma manipulação diária de alimentos em escala comercial. A produção estimada é de cerca de 500 marmitas por dia, que são distribuídas para unidades de saúde importantes em Anápolis, como o Hospital Alfredo Abrahão, a UPA Pediátrica, o Hospital Municipal do Leblon George Hajjar e o Centro Médico da Jaiara. As atividades, conforme a Associação, teriam começado em fevereiro de 2026 e seguem em pleno funcionamento sem o consentimento formal da AAA.
Riscos e demandas da Associação Atlética Anapolina
A Associação Atlética Anapolina expressa profunda preocupação com os potenciais danos que o uso do espaço pode acarretar. Entre os riscos apontados, destacam-se a possibilidade de autuações pela Vigilância Sanitária em caso de irregularidades, a degradação acelerada do patrimônio do clube e o risco de ter sua imagem institucional prejudicada por eventuais escândalos, como surtos de infecção alimentar. A AAA afirma que tentou contato com o proprietário da LG Alimentação, mas teve seu número bloqueado, e reitera que não existe qualquer contrato de cessão, locação, comodato ou permissão de uso formalizado em favor da Anapolina SAF ou de terceiros.
Diante desse cenário, a AAA, por meio de seu ex-presidente Fernando Correia Pereira, solicitou a suspensão imediata das atividades da cozinha industrial, a apresentação de documentos que comprovem as relações entre os envolvidos e uma indenização que supera os R$ 100 mil. A ação busca resguardar os interesses e o patrimônio da tradicional agremiação anapolina.
A contraponto da SAF: legitimidade e regularização
Em resposta às acusações e à ação judicial, o presidente da Anapolina SAF, André Marques dos Santos, questionou a legitimidade do processo. Em nota oficial, ele argumentou que a ação foi proposta por uma pessoa sem autoridade para representar a Associação Atlética Anapolina, cujo mandato já havia se encerrado. André Marques afirmou que a gestão atual da AAA não autorizou nem tinha conhecimento prévio da demanda judicial, indicando uma possível desarticulação interna ou uma tentativa de deslegitimar a ação.
O presidente da SAF defendeu que o restaurante já operava no CT durante a gestão anterior, sem qualquer contrato formal. Ele ressaltou que, ao assumir a presidência em dezembro de 2025, sua gestão foi responsável por regularizar a situação, formalizando um contrato de uso do espaço com a empresa LG Restaurante e Comércio de Alimentos. Além disso, André Marques destacou que o local foi modernizado e estruturado para atender tanto à alimentação dos jogadores e servidores do clube quanto para fornecer refeições a terceiros, uma atividade que, segundo ele, contribui diretamente para a sustentabilidade financeira da Associação. Ele reiterou que a SAF contesta veementemente a ação judicial e lamentou a exposição do processo nas redes sociais antes mesmo da citação das partes, o que, em sua visão, causou dano injusto à imagem do clube.
Impactos e desdobramentos na comunidade de Anápolis
A disputa judicial envolvendo a Anapolina transcende as paredes do clube, gerando repercussões na comunidade de Anápolis. A produção de 500 marmitas diárias para hospitais municipais é um serviço de relevância social, e a interrupção ou continuidade sob incerteza legal pode afetar a rotina dessas instituições de saúde e os pacientes que dependem dessas refeições. O caso também coloca em evidência a complexa relação entre as associações esportivas tradicionais e as modernas Sociedades Anônimas do Futebol, um modelo que busca profissionalizar a gestão, mas que pode gerar atritos quando a transição de patrimônio e responsabilidades não é transparente ou consensual.
Os próximos capítulos dessa controvérsia prometem movimentar os tribunais e o cenário esportivo de Anápolis. A resolução do conflito exigirá clareza nas documentações, definição de responsabilidades e, possivelmente, um novo acordo que harmonize os interesses da Associação, da SAF e da empresa de alimentação, garantindo a continuidade das atividades sem prejuízo ao patrimônio e à imagem do clube. O desfecho terá impacto direto na gestão futura do futebol local e na forma como os ativos dos clubes são administrados.
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