Empreendedores revitalizam o Centro de Goiânia com paixão e novos ares

O Centro de Goiânia, com sua arquitetura Art Déco e ruas que contam histórias, enfrenta um paradoxo: enquanto muitos percebem um esvaziamento, uma rede de pequenos negócios pulsa com vida, resistindo e reinventando o coração da capital goiana. Cafés, livrarias, óticas, lojas de artigos religiosos, bares e bancas de jornal não são apenas pontos comerciais; são espaços de sonhos, sustento e, acima de tudo, resistência cultural e social.
Nos últimos anos, o bairro tem sido palco de um processo de esvaziamento, impulsionado por transformações sociais e econômicas. No entanto, o espírito empreendedor de seus comerciantes e moradores se recusa a deixar que a frase “o Centro está morrendo” se concretize, demonstrando uma notável capacidade de adaptação e renovação.
A Luta Contra o Esvaziamento no Coração de Goiânia
Os tempos áureos do Centro de Goiânia, marcados por uma alta concentração de empresas e uma vida noturna efervescente, deram lugar a um cenário desafiador. Segundo Larissa Ribeiro, gerente da regional central do Sebrae Goiás, a digitalização dos negócios e a proliferação de novos centros comerciais são fatores cruciais para essa mudança. A pandemia de COVID-19 acelerou ainda mais essa transformação no comportamento do consumidor.
Larissa explica que a redução da densidade populacional e empresarial no Centro impactou diretamente o fluxo de consumo. Contudo, os dados da Receita Federal revelam uma resiliência notável: em 2026, mais de 23 mil pequenos negócios, focados em serviços locais, estavam registrados na região. Embora nem todos ocupem espaços físicos, o número é um testemunho da persistência de empreendedores que não desistem do Centro.
Feirão Hocus Pocus: Um Ponto de Resistência Cultural no Centro
Na esquina das Avenidas Araguaia e Paranaíba, a Feirão Hocus Pocus é um símbolo vivo dessa resistência. Há 34 anos no mesmo local, Paulo César de Oliveira Assunção, de 60 anos, e seus irmãos Luiz e Júnior, mantêm um acervo impressionante de cerca de 10 mil itens, incluindo livros, fotografias, discos de vinil, CDs e DVDs. O ambiente, repleto de objetos antigos como telefones de disco e televisões de tubo, transporta os visitantes para outra época.
Conhecida no cenário rock e geek da cidade, a loja é um farol de cor e vida em meio a tantas portas fechadas. Paulo César, que divide seu dia com o gato Chuchu, descreve o negócio como um “misto de paixão e teimosia”. Ele enfatiza a responsabilidade de ser um “ponto de resistência cultural”, contribuindo para a manutenção da vida em uma esquina que, sem a loja, poderia estar vazia, como tantas outras na mesma avenida. Além do comércio, a Feirão Hocus Pocus promove shows de rock anuais, revitalizando a rua com música e convívio.
A Reinvenção da Boemia e a Tradição Familiar no Centro
A história de Áureo Rosa, arquiteto e empresário de 30 anos, ilustra a reinvenção do Centro. Ele assumiu a administração do Zé Latinhas, um bar fundado por seu avô na década de 1960 e considerado o mais antigo de Goiânia. Em 2020, o cenário era desanimador, com o Centro estigmatizado como “morto e sem solução”.
Mestre em urbanismo, Áureo e seus sócios decidiram dar uma “vida nova” ao bar, transformando-o em um catalisador para a vida noturna do bairro. A comunicação do Zé Latinhas sempre convidou as pessoas a “virem para o Centro”, valorizando sua história e suas possibilidades. O sucesso foi tanto que o Zé, que antes era quase solitário na Rua 8, hoje compartilha o espaço com cerca de 15 outros bares, e possibilitou a abertura de sua “irmã”, o Maria Garrafinhas, na famosa Rua do Lazer.
Comércio Diurno e a Esperança de um Centro Vibrante
A vida diurna do Centro também é mantida por comerciantes como Adriana e Edmilson Neves, de 51 e 48 anos, respectivamente. Há 30 anos, eles operam a loja de lâmpadas Show Luz na Rua 4, um antigo polo de calçados. Apesar das mudanças no perfil dos consumidores e do fechamento de muitos comércios, a tradição e a fé na melhoria são o que os impulsiona.
“Não existe cidade sem Centro. A gente acredita no bairro”, destaca Adriana. O casal busca se atualizar, oferecendo iluminação em LED e explorando a presença online. A poucos metros dali, Maria Verônica Alves de Azevedo, de 59 anos, comanda a Naturais Alimentos há mais de 20 anos. Sua loja colorida oferece almoço vegetariano, granolas, castanhas e grãos, atraindo clientes mesmo em meio aos desafios do dia a dia. Maria Verônica, que também abriu uma segunda loja na Avenida Tocantins, mantém a esperança como motor: “Eu gero emprego, pago impostos e é um sonho que eu tenho com a minha família e que eu vou levar adiante, vou continuar sonhando.”
O Futuro e o Novo Olhar para o Centro de Goiânia
A visão de futuro para o Centro é multifacetada e esperançosa. Paulo César, da Hocus Pocus, defende que as pessoas precisam “viver” o bairro, não apenas fazer compras. “É isso que é vida, né? A pessoa deixar o carro ou vir a pé, passear, dar um rolê no Centro, fazer um tour”, argumenta. Áureo, do Zé Latinhas, observa uma mudança geracional, com os jovens enxergando o Centro como um lugar “legal” para ir à noite, com diversas atrações.
Essa percepção é corroborada por Delci Meireles, corretor de imóveis e morador do Setor Central há três anos, que notou uma melhora significativa com a abertura de novos comércios, especialmente bares. “Aqui tem tudo. Tudo o que você precisar, você resolve a pé”, afirma, destacando a conveniência e a qualidade de vida. A resiliência desses empreendedores não só mantém o Centro vivo, mas o transforma em um espelho do que a cidade pode se tornar: um espaço vibrante de cultura, lazer e comunidade.
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