Venda de mina de terras raras em Goiás para empresa dos EUA por US$ 2,8 bilhões: impactos e controvérsias
Goiás se projeta no mapa global de minerais estratégicos com a recente venda bilionária da mineradora Serra Verde, única fora da Ásia a produzir em escala comercial os quatro elementos magnéticos essenciais de terras raras. A aquisição pela empresa norte-americana USA Rare Earth, por cerca de US$ 2,8 bilhões (aproximadamente R$ 14 bilhões), posiciona o estado e o Brasil no centro de uma disputa geopolítica por recursos vitais para a tecnologia moderna. No entanto, a transação, anunciada em 20 de maio, já enfrenta questionamentos do governo federal e do Congresso, levantando debates sobre autonomia estadual, soberania nacional e o futuro da exploração de minerais críticos no país.
O que são terras raras e por que são cruciais?
As terras raras são um grupo de 17 elementos químicos essenciais para a vida moderna, indispensáveis em produtos de alta tecnologia: smartphones, televisores, equipamentos médicos, turbinas eólicas e veículos elétricos. São cruciais para a fabricação de ímãs permanentes de alto desempenho, usados em motores elétricos, geradores e tecnologias de defesa.
A Serra Verde, em Minaçu (GO), destaca-se por ser a única mineradora fora da Ásia a extrair em volume comercial os quatro elementos magnéticos mais valiosos: neodímio, praseodímio, disprósio e térbio. A importância desses minerais reside em sua insubstituibilidade e concentração geográfica. A China detém o quase monopólio da produção e processamento (cerca de 90% da cadeia global), o que impulsiona potências ocidentais a diversificar suas fontes, com o Brasil, detentor da segunda maior reserva mundial, surgindo como parceiro estratégico.
Detalhes da transação e o novo cenário de mercado
A aquisição da Serra Verde pela USA Rare Earth vai além da compra da mina goiana. O acordo visa a combinação das operações para criar uma cadeia produtiva totalmente integrada, controlando desde a extração das terras raras, passando pela separação e processamento dos elementos, até a fabricação de ímãs permanentes. Essa verticalização é estratégica para reduzir a dependência de fornecedores asiáticos, especialmente da China, que historicamente tem sido o principal destino das exportações brasileiras de terras raras, o que representa uma guinada no fluxo comercial.
Financeiramente, a transação envolveu US$ 300 milhões em dinheiro, com o restante do total de US$ 2,8 bilhões em ações. Adicionalmente, o contrato prevê um acordo de fornecimento de 15 anos, com o estabelecimento de preços mínimos para os minerais, garantindo previsibilidade de receita e mitigando riscos para a operação. A expectativa é que essa união crie uma líder global no setor, solidificando a posição do Brasil, via Goiás, como player essencial.
Repercussões locais e o futuro da operação em Minaçu
Ricardo Grossi, presidente da Serra Verde, assegurou que a venda não acarretará mudanças imediatas na operação brasileira. A gestão local manterá a estratégia em curso, focada no “ramp-up” e na expansão da produção. A mineradora, que iniciou a produção comercial em janeiro de 2024, tem como meta elevar a produção para 6,4 mil toneladas por ano de óxidos de terras raras até o final de 2027. Para Minaçu, município de 27 mil habitantes, a empresa já emprega cerca de 400 pessoas, sendo 72% da força de trabalho composta por moradores da região.
Apesar da continuidade inicial, a expectativa é que a transação traga novos investimentos e geração de novos empregos em Goiás no médio e longo prazo. Grossi ressaltou que a empresa combinada estará mais forte para crescer e investir, criando novas funções e promovendo desenvolvimento econômico local. O impacto real dependerá da efetivação desses planos de expansão e da sustentabilidade do projeto.
Impasse jurídico e geopolítico: a União contesta a venda
A complexidade da transação se aprofundou com a contestação do governo federal. O ministro do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC), Márcio Elias Rosa, declarou que o subsolo brasileiro pertence à União, não aos estados, e que cabe a ela regulamentar a exploração de terras raras e outros minerais críticos. Elias Rosa classificou o memorando de entendimento entre o governo de Goiás e os Estados Unidos como um “vício de inconstitucionalidade” que “não se sustenta”.
Essa declaração joga luz sobre um debate crucial de soberania nacional sobre recursos estratégicos. Enquanto estados buscam atrair investimentos, a União reafirma seu papel de guardiã dos recursos minerais de interesse nacional. Paralelamente, deputados do PSOL protocolaram representação na Procuradoria-Geral da União (PGR), questionando a legalidade da aquisição. Este movimento político-jurídico adiciona incerteza à operação, abrindo caminho para possíveis renegociações ou até suspensão da venda, dependendo da interpretação legal sobre a autonomia estadual em acordos internacionais envolvendo recursos federais.
A venda da mina da Serra Verde e suas controvérsias demonstram a relevância estratégica das terras raras para o cenário global e a complexidade das relações entre investimento estrangeiro, desenvolvimento local e soberania nacional. À medida que os desdobramentos dessa negociação se desenrolam, O Parlamento seguirá atento, trazendo a você a cobertura completa e contextualizada sobre este e outros temas que impactam diretamente a vida dos brasileiros. Mantenha-se informado com a credibilidade e a diversidade de análises que nosso portal oferece, acompanhando de perto os assuntos do país e do mundo.
Fonte: https://g1.globo.com




