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Césio-137: o legado radioativo de quase quatro décadas em Goiânia e seu impacto por 200 anos

Há quase quatro décadas, uma tragédia silenciosa e invisível se abateu sobre Goiânia, capital de Goiás. O acidente com césio-137, ocorrido em setembro de 1987, permanece gravado na memória nacional como o maior desastre radiológico da história do Brasil, deixando um rastro de mortes imediatas, milhares de pessoas afetadas e um desafio ambiental que se estenderá por mais de dois séculos. Longe de ser apenas uma lembrança histórica, o impacto desse evento catastrófico continua a se manifestar na vida dos sobreviventes e na paisagem da cidade, com as vítimas ainda clamando por apoio e a ciência monitorando um perigo que não desapareceu.

O enredo começou quando dois catadores de recicláveis encontraram um aparelho de radioterapia abandonado em uma clínica desativada. Curiosos, eles o desmontaram, vendendo suas partes para um ferro-velho. Dentro de um cabeçote de chumbo, havia uma cápsula com 19 gramas de cloreto de césio-137, um material altamente radioativo. A substância, que brilhava no escuro com uma luz azul intensa, despertou fascínio e rapidamente se espalhou, passada de mão em mão, como um objeto exótico e inofensivo. Mal sabiam eles que estavam manuseando um veneno invisível, capaz de alterar a vida celular e causar danos irreparáveis.

A Tragédia em Câmera Lenta e o Ato Heroico

O brilho misterioso do césio-137 foi a isca para uma contaminação em escala. O proprietário do ferro-velho, Devair Alves Ferreira, e seu irmão, Ivo Alves Ferreira, encantados com a “pedra brilhante”, levaram fragmentos para casa. Crianças, incluindo a pequena Leide das Neves, de apenas seis anos, manipularam o pó radioativo, brincando com a substância fatal. A contaminação se deu de forma rápida e silenciosa, por contato direto, ingestão e inalação. Sem que ninguém soubesse, a radiação já penetrava os corpos, iniciando um processo de adoecimento.

Os primeiros sintomas não tardaram a aparecer: náuseas, vômitos, tonturas, diarreia e lesões na pele. A princípio, foram atribuídos a doenças comuns. No entanto, a persistência e a abrangência dos sintomas em diversas pessoas da mesma família e vizinhança levantaram suspeitas. Foi Maria Gabriela Ferreira, de 35 anos, cunhada de Devair, quem teve a perspicácia de desconfiar que um objeto encontrado no ferro-velho poderia estar relacionado aos inexplicáveis males que afligiam seus parentes e vizinhos, inclusive animais de estimação. Ela levou o material até a Vigilância Sanitária, que, após algumas idas e vindas, finalmente identificou a natureza radioativa do material.

O Preço da Revelação e as Primeiras Vítimas

A coragem de Maria Gabriela foi crucial para que a tragédia não tomasse proporções ainda maiores, alertando as autoridades e desencadeando as operações de contenção. Contudo, ela pagou o preço mais alto. Morreu um mês após sua atitude, aos 37 anos, vítima da mesma contaminação que ajudou a revelar. No mesmo dia, sua sobrinha, a pequena Leide das Neves, que havia manuseado o pó com inocência infantil, também faleceu, tornando-se um símbolo doloroso da vulnerabilidade humana à radiação. Outras duas vítimas fatais foram funcionários do ferro-velho: Israel Batista dos Santos, de 20 anos, e Admilson Alves de Souza, de 18 anos. Essas quatro vidas foram as perdas diretas e oficialmente confirmadas pela exposição aguda à radiação.

O Desafio da Decontaminação e o Lixo Atômico

Após a identificação da contaminação, Goiânia virou palco de uma das maiores operações de descontaminação e resgate da história mundial. Cerca de 10 mil pessoas foram monitoradas, e centenas de casas e estabelecimentos foram isolados. As ruas foram varridas, e objetos pessoais, desde roupas e utensílios domésticos até partes de casas e toneladas de terra, foram removidos e descartados. O resultado foram mais de 6 mil toneladas de rejeitos radioativos, um volume imenso de material contaminado que precisava ser armazenado com segurança por um período geologicamente longo.

Esses rejeitos foram levados para um depósito especialmente construído em Abadia de Goiás, a cerca de 30 km da capital. Lá, o lixo radioativo foi acondicionado em tambores de concreto e aço, e enterrado em valas protegidas. A preocupação com a estabilidade do material se justifica: pesquisadores estimam que, devido à meia-vida do césio-137, os riscos de radiação só devem desaparecer totalmente após 200 anos. Este é um legado que ultrapassa gerações, impondo uma vigilância contínua e um lembrete permanente do perigo nuclear.

O Impacto Contínuo: Luta por Apoio e Stigma Social

Mesmo após mais de 37 anos, as marcas do acidente vão muito além dos locais monitorados na cidade. Cerca de mil pessoas ainda frequentam o Centro de Assistência ao Radioacidentado (Cara), um órgão da Secretaria Estadual de Saúde de Goiás (SES-GO) criado em 2011, que assumiu o lugar da extinta Superintendência Leide das Neves (Suleide). O Cara divide os pacientes em grupos, monitorando aqueles que tiveram exposição mais intensa (acima de 20 rads), os com menor exposição e os vizinhos ou trabalhadores que atuaram nas áreas contaminadas.

As vítimas diretas e indiretas do césio-137 continuam a sofrer as consequências. Além dos problemas de saúde física – como maior incidência de cânceres, catarata e outras doenças – muitos enfrentam traumas psicológicos profundos e o estigma social. A “radiofobia”, o medo irracional da radiação, fez com que muitos fossem evitados ou discriminados em suas comunidades, dificultando a reintegração social e profissional. A falta de um apoio médico e psicossocial contínuo e adequado é uma queixa constante entre os sobreviventes, que lutam para ter suas necessidades reconhecidas e atendidas pelo poder público, numa batalha que parece não ter fim.

O acidente de Goiânia serve como um alerta perene sobre os perigos da negligência com materiais radioativos e a importância da educação e da fiscalização rigorosa. É uma história que precisa ser contada e recontada, não apenas como um registro de dor e superação, mas como uma lição para o futuro. Para o O Parlamento, é essencial continuar acompanhando de perto os desdobramentos dessa história e a luta dos que ainda vivem sob a sombra do césio-137, reforçando nosso compromisso com a informação relevante, atual e aprofundada. Continue conosco para mais análises e reportagens que conectam os fatos à sua realidade.

Fonte: https://g1.globo.com

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