Mais de 40% das mortes por câncer no Brasil poderiam ser evitadas, aponta estudo internacional
Um recente e abrangente estudo internacional revela um dado alarmante para o cenário da saúde no Brasil: 43,2% dos óbitos causados por câncer no país, o equivalente a cerca de 109,4 mil vidas, poderiam ser evitados. A pesquisa, publicada na prestigiada revista científica The Lancet, aponta para a urgência de medidas mais eficazes em prevenção primária, diagnóstico precoce e melhor acesso ao tratamento para reverter esse quadro. Os resultados oferecem uma perspectiva crítica sobre os desafios e as oportunidades de intervenção na luta contra a doença.
A estimativa é que, dos casos de câncer diagnosticados no Brasil em 2022, aproximadamente 253,2 mil evoluam para óbito em até cinco anos após a detecção. Desse total, mais de 109 mil mortes seriam passíveis de prevenção ou evitação. O estudo, intitulado “Mortes evitáveis por meio da prevenção primária, detecção precoce e tratamento curativo do câncer no mundo”, é uma iniciativa de doze pesquisadores, sendo oito deles vinculados à Agência Internacional para Pesquisa em Câncer (IARC), braço da Organização Mundial da Saúde (OMS).
Os pilares da evitabilidade: prevenção e acesso
Os pesquisadores categorizam as quase 110 mil mortes evitáveis no Brasil em duas frentes principais. A primeira, e mais numerosa, abrange 65,2 mil óbitos que poderiam ser preveníveis, ou seja, a doença sequer teria se manifestado. A segunda categoria engloba 44,2 mil mortes que poderiam ser evitadas por meio de um diagnóstico mais rápido e um acesso adequado e tempestivo a tratamento. Essa distinção é crucial para o direcionamento de políticas públicas, indicando que tanto a antecipação da doença quanto a eficácia da resposta a ela são falhas significativas no sistema atual.
Fatores de risco conhecidos e a importância da educação
Ao aprofundar a análise sobre as mortes preveníveis, o estudo destaca cinco fatores de risco preponderantes que, se controlados ou eliminados, reduziriam drasticamente a incidência de câncer. São eles: o tabaco, o consumo de álcool, o excesso de peso, a exposição à radiação ultravioleta e diversas infecções (como as causadas pelo vírus HPV, hepatite e a bactéria Helicobacter pylori). No contexto brasileiro, que enfrenta desafios persistentes em campanhas de saúde pública e na disseminação de informações claras, a educação sobre esses fatores é um pilar fundamental para a mudança.
Disparidades globais e o espelho do Brasil
O levantamento da The Lancet não se limita ao Brasil, oferecendo um panorama global impactante. Em escala mundial, 47,6% dos 9,4 milhões de mortes por câncer poderiam ter sido evitadas, totalizando quase 4,5 milhões de vidas. Esse percentual global se divide em 33,2% de mortes preveníveis e 14,4% evitáveis por diagnóstico e tratamento.
As disparidades regionais são gritantes. Enquanto países do norte da Europa, como Suécia (28,1%), Noruega (29,9%) e Finlândia (32%), apresentam índices de mortes evitáveis próximos a 30% (indicando um sistema de saúde robusto e prevenção eficaz), nações africanas como Serra Leoa (72,8%), Gâmbia (70%) e Malaui (69,6%) enfrentam realidades devastadoras, onde sete em cada dez mortes são passíveis de evitabilidade. A América do Sul, com 43,8%, alinha-se de perto com o indicador brasileiro, revelando um padrão regional de desafios similares.
O peso do Índice de Desenvolvimento Humano (IDH)
A pesquisa também estabelece uma clara correlação entre o Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) e as taxas de mortes por câncer evitáveis. Em países de baixo IDH, onde a qualidade de vida é mais precária, impressionantes 60,8% das mortes poderiam ter sido evitadas. À medida que o IDH aumenta, essa proporção diminui, chegando a 40,5% em nações de IDH muito alto. O Brasil, classificado como país de IDH alto, situa-se no meio-termo, mas ainda com uma parcela significativa de mortes evitáveis, indicando a necessidade de aprimorar suas políticas e infraestruturas de saúde pública.
Um exemplo marcante dessa desigualdade é o câncer de colo de útero. Em países de baixo e médio IDH, ele lidera a lista de mortes evitáveis. Em contraste, em países de IDH alto e muito alto, mal figura entre os cinco principais. Isso sublinha a disparidade no acesso a vacinas contra HPV, exames de rastreamento como o Papanicolau e tratamentos iniciais, que são cruciais para a erradicação dessa doença que afeta majoritariamente mulheres em condições de vulnerabilidade.
Os cânceres mais evitáveis e as implicações para o Brasil
Globalmente, 59,1% das mortes evitáveis estão associadas a tipos específicos de câncer: pulmão, fígado, estômago, colorretal e colo do útero. O câncer de pulmão destaca-se como o maior causador de óbitos preveníveis por medidas primárias, respondendo por 34,6% de todas as mortes desse grupo. No Brasil, esses dados reforçam a urgência de programas de saúde pública mais robustos, focados na prevenção do tabagismo, no combate à obesidade e no incentivo à vacinação contra HPV, bem como na expansão do acesso a exames de rastreamento para cânceres como o colorretal e o de colo de útero.
A realidade brasileira, com a estimativa de 781 mil novos casos de câncer por ano até 2028 e o salto de casos de câncer de pele, conforme noticiado anteriormente, evidencia um cenário de crescente pressão sobre o sistema de saúde. A vacina contra o HPV, por exemplo, é uma ferramenta comprovadamente eficaz na prevenção do câncer de colo de útero, mas sua cobertura e acesso ainda precisam ser ampliados. As conclusões do estudo da The Lancet servem como um chamado à ação, instigando o país a fortalecer suas estratégias de saúde pública para evitar que um número tão elevado de vidas seja perdido desnecessariamente.
Aprofundar a compreensão desses dados e suas implicações é fundamental para a construção de um futuro com menos perdas para o câncer. O Parlamento continua acompanhando de perto os desdobramentos dessa discussão e o impacto dessas políticas na vida dos brasileiros. Mantenha-se informado conosco, explorando nossa variedade de temas e o compromisso contínuo com a informação relevante e contextualizada.




