Morre em Campo Grande Leonardo Dias Mendonça, o ‘Barão do Tráfico’ e ex-aliado de Beira-mar

Campo Grande, MS – A capital sul-mato-grossense foi palco do desfecho da vida de um dos mais notórios nomes do crime organizado brasileiro. Leonardo Dias Mendonça, de 63 anos, conhecido como “Barão do Tráfico” e antigo aliado de Fernandinho Beira-Mar, faleceu na tarde desta quinta-feira (20) na Santa Casa de Campo Grande. Ele estava internado em estado grave desde a última segunda-feira (17), após sentir-se mal na Penitenciária Federal da cidade, onde cumpria pena.
A equipe médica confirmou a morte encefálica do detento na tarde de quinta. Após um período de despedida, os familiares autorizaram o desligamento dos aparelhos que o mantinham vivo. A causa exata do óbito ainda não foi oficialmente divulgada, mas a notícia marca o fim de uma trajetória criminosa que se estendeu por décadas, com ramificações internacionais e grande impacto no cenário do tráfico de drogas.
A Morte do “Barão do Tráfico” em Campo Grande
A internação de Leonardo Dias Mendonça na Santa Casa de Campo Grande ocorreu após um mal-estar súbito na Penitenciária Federal. Sua condição de saúde se deteriorou rapidamente, levando à confirmação da morte encefálica. A notícia de seu falecimento repercutiu no meio jornalístico e entre as autoridades, dado o histórico de sua atuação no tráfico de entorpecentes e sua relevância no cenário do crime organizado.
A família aguarda a liberação do corpo pelas autoridades para realizar o traslado até Goiás, estado onde residem os parentes do ex-traficante. A defesa de Mendonça havia informado ao g1 que ele apresentava queixas de saúde desde a semana anterior ao óbito, indicando um quadro clínico que se agravou nos últimos dias.
Ascensão e Atuação no Tráfico Internacional
O nome de Leonardo Dias Mendonça ganhou projeção internacional no final dos anos 1990, quando seu envolvimento com o tráfico de drogas o levou à lista de procurados da Interpol em 1999. Sua influência era tamanha que, na época de sua prisão em 2002, ele era buscado por governos de quatro países: Brasil, Estados Unidos, Holanda e Colômbia. Sua capacidade de articulação e o volume de suas operações o colocaram em um patamar de poder que, em certos momentos, chegou a rivalizar com o de Fernandinho Beira-Mar, outro conhecido líder do tráfico.
A Polícia Federal brasileira revelou que o “Barão do Tráfico” se especializou em adquirir cocaína diretamente das regiões controladas pelas Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc). Essa droga era então distribuída em escala global, demonstrando a sofisticação e a abrangência de sua rede criminosa. O poder financeiro acumulado por seu grupo era vasto, e os lucros ilícitos eram habilmente lavados através da aquisição de fazendas e gado, além de serem usados para corromper políticos e magistrados, garantindo uma rede de proteção e influência.
Da Prisão ao Regime Semiaberto e Novas Investigações
Mesmo após sua detenção e enquanto cumpria pena na Penitenciária Estadual Odenir Guimarães, em Goiás, Leonardo Dias Mendonça continuava a comandar uma complexa rede de tráfico internacional. Investigações conjuntas do Ministério Público Federal (MPF-GO) e da Polícia Federal desmantelaram essa quadrilha, que contava com 35 membros. A condenação do grupo ocorreu em julho de 2010, evidenciando a dificuldade em conter a atuação de criminosos de alta periculosidade mesmo dentro do sistema prisional.
As apurações da época revelaram que o uso constante de telefones celulares dentro do presídio era crucial para a manutenção das operações. Leonardo chegou a trocar de aparelho mais de 50 vezes durante o período em que esteve detido, um indicativo da persistência e dos recursos empregados para burlar a segurança e continuar suas atividades ilícitas. Em agosto de 2018, ele progrediu para o regime semiaberto, utilizando tornozeleira eletrônica em Aparecida de Goiânia (GO).
A liberdade parcial, contudo, não significou o fim de sua vida no crime. Em 2019, Mendonça voltou a ser alvo de uma grande operação da Polícia Federal, a Operação Ozark-Narco. Esta ação resultou no cumprimento de 25 mandados de prisão em diversos estados, como Goiás, São Paulo, Pará, Minas Gerais e no Distrito Federal. As investigações apontaram que ele coordenava o envio de cocaína para a Europa, contando com a colaboração de figuras como o ex-prefeito de São Miguel do Araguaia (GO), Nélio Pontes, que seria responsável pela logística de recebimento das drogas.
O esquema utilizava pistas clandestinas no interior de Goiás para descarregar a cocaína trazida por pequenas aeronaves de países produtores. De lá, a droga era transportada para a Europa, oculta em contêineres de navios que carregavam mercadorias lícitas, uma tática comum para disfarçar o carregamento. O capital obtido era então injetado em empresas de diversos setores, com o objetivo de ocultar a origem ilícita dos recursos e dar-lhes uma aparência de legalidade.
Os Últimos Anos e a Transferência para Campo Grande
Em novembro de 2023, o processo de execução penal de Leonardo Dias Mendonça foi transferido para a 5ª Vara Federal Criminal de Campo Grande, resultando em sua movimentação para a Penitenciária Federal da cidade. Essa transferência marcou os últimos meses de sua vida, culminando na internação e posterior óbito na capital sul-mato-grossense.
A morte do “Barão do Tráfico” encerra um capítulo longo e complexo na história do combate ao crime organizado no Brasil, levantando questões sobre a eficácia das penas, a ressocialização e a constante vigilância necessária para desmantelar redes criminosas que operam em escala global.
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