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Grupo Casas Bahia busca recuperação judicial por dívida de R$ 17,3 bi

O cenário do varejo brasileiro foi abalado neste domingo, 16 de agosto de 2026, com a notícia de que o Grupo Casas Bahia, uma das maiores e mais tradicionais redes de lojas do país, entrou com pedido de recuperação judicial. A solicitação foi protocolada na 2ª Vara de Falências e Recuperações Judiciais da Justiça de São Paulo, revelando uma dívida colossal de R$ 17,3 bilhões.

A medida emergencial busca reestruturar as finanças de um conglomerado que inclui não apenas as icônicas Casas Bahia e Ponto Frio, mas também o e-commerce Extra.com e a fabricante de móveis Bartira, além de subsidiárias de logística e tecnologia, totalizando dez empresas da holding. A crise, que se arrasta há alguns anos, agora atinge um novo patamar, com impactos significativos para o mercado, funcionários e consumidores.

O Cenário da Dívida e o Impacto Operacional

A dívida declarada pelo Grupo Casas Bahia é distribuída entre diferentes categorias de credores. A maior parte, R$ 16,4 bilhões, refere-se a credores quirografários, ou seja, aqueles sem garantias específicas. Além disso, há R$ 754 milhões em débitos trabalhistas e R$ 154 milhões com microempresas e empresas de pequeno porte, evidenciando a amplitude do problema.

As consequências operacionais já são visíveis e dolorosas. O grupo informou no pedido de recuperação judicial a demissão de aproximadamente 3.000 funcionários, de um total de 30.117 colaboradores. Paralelamente, quase 300 lojas foram fechadas, impactando a presença física da rede que contava com mais de 700 unidades da Casas Bahia e mais de 65 do Ponto Frio. Esses números não apenas refletem a gravidade da situação financeira, mas também o profundo impacto social e econômico em diversas comunidades.

As Raízes da Crise: Investimentos, Juros e Concorrência

No documento enviado à Justiça, a companhia detalha as causas que a levaram à atual situação. A crise é atribuída, em grande parte, aos pesados investimentos em tecnologia, logística e lojas digitais, iniciados em 2019. Embora a estratégia de digitalização fosse promissora, ela foi confrontada por choques externos, como a pandemia de Covid-19, que paralisou as lojas físicas e alterou drasticamente o comportamento do consumidor.

Um fator crucial foi a escalada da taxa Selic. O plano de digitalização começou quando os juros estavam na mínima histórica de 2% ao ano, entre o final de 2020 e o início de 2021. No entanto, a elevação da Selic para patamares próximos a 15% ao ano desorganizou completamente a estrutura financeira da companhia. O modelo de negócio da varejista, altamente dependente de capital de giro, financiamento a estoques, operações de risco sacado com fornecedores e do crédito direto ao consumidor, tornou-se insustentável com o encarecimento do crédito e a compressão da renda das famílias de menor poder aquisitivo. O avanço da inadimplência nos carnês e cartões, somado à concorrência acirrada de plataformas digitais, completou o cenário de adversidade.

As iniciativas do chamado Plano de Transformação, lançado em 2023 com corte de despesas, redução de estoques e fechamento de 55 lojas deficitárias, geraram apenas um alívio pontual, incapaz de reverter a trajetória de deterioração financeira.

Medidas de Urgência e o Risco de Paralisia

A petição inicial do Grupo Casas Bahia solicita uma série de medidas de urgência para evitar a paralisação imediata das operações. A maior preocupação reside no risco de vencimento antecipado de mais de R$ 10 bilhões em contratos financeiros e comerciais. A empresa alerta que, caso os bancos retenham as garantias de cartão de crédito e Pix, até 60% da entrada mensal de caixa seria drenada imediatamente, inviabilizando o negócio.

Entre os pedidos à Justiça, destacam-se a suspensão imediata de execuções por 180 dias, a vedação ao vencimento antecipado de contratos comerciais e a manutenção do fluxo regular de recebíveis, impedindo retenções por parte de bancos credores. A rede também solicita a obrigatoriedade da entrega de mercadorias já compradas que estejam em trânsito com fornecedores e a liberação de mais de R$ 750 milhões em depósitos de recursos trabalhistas feitos em ações anteriores ao pedido, visando reforçar o caixa operacional e garantir a continuidade das atividades.

Histórico Recente e Perspectivas Financeiras

Este não é o primeiro desafio financeiro do Grupo Casas Bahia. Cerca de dois anos antes, em abril de 2024, a varejista homologou uma recuperação extrajudicial que reestruturou R$ 4,8 bilhões em dívidas financeiras, da qual saiu três meses depois. Contudo, os resultados recentes mostram que a reestruturação anterior não foi suficiente para estabilizar a empresa.

Neste domingo, a rede anunciou um prejuízo de R$ 10,1 bilhões no trimestre, um salto drástico em comparação à perda de R$ 555 milhões no mesmo período do ano passado. Com isso, o patrimônio líquido da Casas Bahia está negativo em R$ 8,1 bilhões, indicando que seus bens e direitos a receber não são suficientes para cobrir suas dívidas. O valor de mercado da varejista em Bolsa é de R$ 660 milhões. A empresa, que não é mais controlada pela família Klein, tem hoje a gestora Mapa Capital como acionista de referência, com 85,5% do capital desde agosto do ano passado.

Este é o oitavo trimestre consecutivo de perdas para a Casas Bahia. Desde o segundo trimestre de 2024, período em que entrou em recuperação extrajudicial, os resultados negativos têm se acumulado e escalado, passando de centenas de milhões para rombos que ultrapassam R$ 1 bilhão, escancarando a profundidade da crise financeira.

A recuperação judicial do Grupo Casas Bahia representa um momento crítico para o varejo nacional e para a economia como um todo. Os próximos passos da Justiça e as negociações com credores serão determinantes para o futuro da companhia e de seus milhares de colaboradores. Para acompanhar todos os desdobramentos desta e de outras notícias relevantes, continue conectado com O Parlamento, seu portal de informação confiável e aprofundada.

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