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A história de Selva Rios: a beleza goiana que encantou a década de 60 e recusou o Miss Brasil

Na efervescente Goiânia da década de 1960, um nome resplandecia com uma beleza singular e uma personalidade discreta: Selva Rios Sócrates Vasconcellos. Longe dos holofotes que hoje definem a fama digital, Selva, então com seus vinte e poucos anos, cativava a atenção da sociedade goiana de tal forma que foi insistentemente convidada a disputar o cobiçado título de Miss Brasil. Contudo, em um gesto que a diferenciou de muitas outras, ela recusou a oportunidade, mantendo-se fiel à sua essência.

Sua filha caçula, Sílvia Sócrates Vasconcellos, carinhosamente conhecida como Silvinha, descreve a admiração pela mãe como um reflexo de sua autenticidade. “Ela nunca precisou de excessos, de maquiagem ou de estar produzida para chamar a atenção. Na verdade, com seu jeito tímido e discreto, ela jamais seria capaz de fazer algo para estar em evidência propositalmente”, avalia Silvinha, sublinhando a naturalidade que a tornava tão especial.

O brilho de uma era em Goiânia

Nascida em Goiânia em 28 de dezembro de 1944, Selva era a terceira de cinco filhos de uma família proeminente. Seu pai, José Vital Sócrates, foi um dos primeiros pediatras da capital goiana e um respeitado professor nas Escolas de Engenharia e Medicina da Universidade Federal de Goiás (UFG). Sua mãe, Odete Rios Sócrates, dedicou-se integralmente à família, criando um ambiente de apoio e valores sólidos.

Desde cedo, Selva demonstrou ambições além da vida social. Ela almejava estudar arquitetura e ingressou no mercado de trabalho jovem, sendo aprovada em um concurso do antigo Banco do Estado de Goiás em 1964, aos 20 anos. Permaneceu na instituição até 1967, quando deixou a carreira bancária a pedido de seu futuro marido. Nesse período, sua beleza já era notada, e ela começou a se destacar em eventos sociais e na imprensa local, que frequentemente a mencionava em colunas sobre beleza e elegância.

Aclamação local e a recusa nacional

A década de 60 foi marcada por uma série de reconhecimentos à beleza de Selva em âmbito local. Em 1962, ela foi eleita a primeira “Rainha da Cidade”, um título que reconquistou em 1963, em disputas organizadas pelo Grêmio Lítero-Teatral Carlos Gomes. No mesmo ano de 1963, foi coroada “Princesa do Liceu” pelo Grêmio Literário Félix de Bulhões e “Rainha das Férias”, além de integrar a prestigiada lista de “As Treze Mais”, na seção “Brotos” do jornalista João Guimarães.

O ano de 1964 solidificou sua fama local com o título de “Miss Imprensa”, concedido por figuras influentes do jornalismo goiano como João Guimarães, Lourival Batista Pereira (LBP) e Jaime Câmara, fundador do Grupo Jaime Câmara. Ainda em 1964, foi aclamada “Rainha do Carnaval” por indicação do Jóquei Clube, onde já havia sido eleita “Rainha do Jóquei Clube”. Apesar de toda essa aclamação, a jovem goiana manteve sua postura de discrição quando o convite para o Miss Brasil surgiu.

Timidez e princípios: os motivos da recusa

Por duas vezes, em 1961 e 1964, Selva foi indicada pelo Jóquei Clube de Goiás para o concurso “Miss Universo-Miss Brasil”. Em ambas as ocasiões, ela declinou do convite. A recusa foi tão notável que, em um dos anos, o Minas Brasília Tênis Clube chegou a garantir-lhe, no mínimo, o terceiro lugar no “Miss Brasil” caso aceitasse concorrer como “Miss Distrito Federal”. Mesmo com a promessa de um pódio, Selva permaneceu irredutível.

Para Silvinha, a decisão da mãe refletia sua essência. “Ela simplesmente era e é linda. Daquelas pessoas cuja presença ilumina o ambiente de forma discreta, natural e inesquecível”, pontua. O pesquisador independente e escritor Yuri Baiocchi, primo de terceiro grau de Selva, que se debruçou sobre um vasto material para entender sua história, reforça que ela jamais se entusiasmou com a ideia de ser miss, alegando, inclusive, não ter altura suficiente. Yuri também contextualiza a época, lembrando que “nas décadas de 1950 e 1960, muitas famílias tradicionais ainda viam os concursos de beleza com alguma reserva”.

Silvinha complementa que a mãe, além de tímida, nunca se imaginou desfilando ou tendo sua aparência julgada. “Mas acredito que havia algo ainda mais profundo: ela nunca se enxergou como alguém que tivesse ‘algo a mais’ do que as outras pessoas simplesmente por ser bonita. Ao contrário, ela sempre teve uma capacidade muito bonita de reconhecer e admirar a beleza nos outros”, explica a filha. Essa postura se manifestou no entusiasmo de Selva ao incentivar sua prima homônima, Selva Rios Campêlo, que chegou ao Miss Brasil na década de 1970, com o apoio e as fotografias do marido de Selva, Luiz Mauro de Sousa Vasconcellos.

Um legado de autenticidade e dedicação familiar

A recusa de Selva em disputar o Miss Brasil não passou despercebida pela imprensa. O jornal O Popular, em sua edição de 11 de abril, noticiou a decisão na coluna de LBP: “Selva Rios Sócrates, a senhorita que hoje ilustra esta coluna, tem recebido insistentes convites, por parte de entidades, para concorrer ao título de Miss Goiás. Selva, contudo, não optou por nenhum deles. Gabarito não lhe falta”. João Guimarães, por sua vez, descreveu-a como detentora de “incomparável formosura e êxito sem par nos círculos sociais e intelectuais de Goiânia”, chegando a afirmar que seu título de “Miss Imprensa” honrava os próprios jornalistas.

Em maio de 1968, um ano após deixar o banco, Selva casou-se com Luiz Mauro de Sousa Vasconcellos, um médico obstetra apaixonado por fotografia, que registrou a beleza da esposa em diversas imagens. O casal teve cinco filhos, e Selva dedicou-se à família com hábitos simples, carinho e atenção. “Ela dedicou sua vida a cuidar… se doou, e o faz até hoje, a quem quer que precisasse e a nossa casa sempre foi o lugar mais receptivo do mundo exatamente porque ela acolhe a todos com muito amor e alegria”, relata Silvinha.

Selva ficou viúva em dezembro de 2015, com o falecimento de Luiz Mauro aos 77 anos. Ele era um respeitado cooperado da Unimed Goiânia, formado em medicina em 1965 pela Faculdade de Ciências Médicas de Minas Gerais. Atualmente com 81 anos, Selva Rios Sócrates Vasconcellos continua sendo o pilar de sua família, um exemplo de dedicação e autenticidade. Em reuniões familiares, suas histórias são relembradas com carinho, reforçando o legado de uma mulher que, mesmo diante da oportunidade de fama nacional, escolheu a discrição e a genuinidade. Para saber mais sobre a história dos concursos de beleza no Brasil, clique aqui.

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