Residência em Anápolis vira museu particular com o acervo histórico de Lázaro Caldeira de Amorim

Um portal para o passado em Anápolis
A rotina de Lázaro Caldeira de Amorim, de 62 anos, é marcada por um diálogo constante com o tempo. Ao cruzar a porta de sua residência em Anápolis, o visitante não encontra apenas um lar, mas um verdadeiro acervo histórico que preserva a memória material de gerações. O que começou como um gosto pessoal na infância tornou-se, ao longo de duas décadas, uma missão de resgate de objetos que, para muitos, seriam apenas sucata.
Espalhados por cada canto da casa, encontram-se rádios de válvula, ferramentas agrícolas centenárias, máquinas de costura e utensílios domésticos que narram a evolução do cotidiano rural e urbano no Brasil. Lázaro, que iniciou sua coleção por volta dos 40 anos enquanto trabalhava como mototaxista, dedica-se a garimpar, limpar e restaurar peças que encontrou em ferros-velhos e propriedades rurais, devolvendo-lhes a funcionalidade e o brilho de outrora.
A arte da restauração e o valor da história
O colecionador não se limita a acumular itens; ele domina a técnica de reabilitar mecanismos complexos. Entre as raridades de seu acervo, destaca-se uma máquina de fabricar vassouras, encontrada em estado crítico de conservação. Após um minucioso processo de desmontagem, limpeza de graxa e ferrugem e remontagem, o equipamento voltou a operar, demonstrando a engenhosidade das máquinas de metal que, segundo Lázaro, são feitas para durar para sempre.
A curadoria de Lázaro é intuitiva, mas precisa. Ele conhece a origem e a utilidade de cada item, desde as bombas manuais usadas em cisternas até os ferros de passar a gás, que pesavam cerca de 10 quilos. Para ele, o ferro é o material que melhor resiste ao teste do tempo, ao contrário da madeira, que exige cuidados constantes contra pragas e umidade.
Memórias afetivas e o elo com a vida rural
Muitos objetos possuem um valor sentimental inestimável, ligados à trajetória de sua família, composta por imigrantes mineiros que se estabeleceram em Goiás. Uma escumadeira utilizada por seu pai para o preparo de rapadura e uma canga de boi que pode ter mais de 200 anos são exemplos de peças que, para Lázaro, não possuem preço de venda. Esses itens são elos diretos com a infância vivida em uma propriedade rural em Pirenópolis, onde a subsistência dependia do trabalho braçal e da terra.
A coleção também abrange a era da comunicação e do entretenimento. Rádios que sintonizavam emissoras internacionais, toca-discos que reproduzem LPs do Trio Parada Dura e os primeiros modelos de telefones celulares convivem no mesmo espaço. Cada aparelho funciona como um gatilho de memória, transportando o colecionador e seus visitantes para épocas em que a tecnologia exigia mais esforço humano e paciência.
O museu vivo como ponto de encontro
Lázaro faz questão de manter as portas abertas para quem deseja conhecer seu acervo. Ele acredita que o valor das peças se perde se elas não forem compartilhadas. O “museu” particular tornou-se um ponto de curiosidade na cidade, atraindo desde pessoas mais velhas, que se emocionam ao reencontrar objetos de seu passado, até jovens que nunca viram o funcionamento de um equipamento odontológico a pedal.
Embora enfrente a limitação de espaço e o custo de manutenção, o anapolino segue firme em seu propósito. Para ele, a “ferrugem no sangue” — como descreve sua paixão por colecionar — é o que mantém viva a história de um Brasil que se transforma rapidamente. O Parlamento segue acompanhando histórias de preservação cultural e memória regional, reafirmando seu compromisso com informações que valorizam o patrimônio e a identidade de nossa gente.




